Em menos de uma semana, dois terremotos graves dominaram o noticiário mundial. No dia 10 de agosto de 2026, um tremor de magnitude 7,4 atingiu o departamento de Chocó, na Colômbia, perto da cidade de San José del Palmar — o balanço mais recente aponta 281 mortos, quase 4 mil feridos, mais de 12 mil casas destruídas e centenas de estradas e pontes danificadas. Cinco dias depois, em 15 de agosto, um terremoto de magnitude 7,7 sacudiu a região de Flores, na Indonésia, com alerta de tsunami emitido para a costa e réplicas de até magnitude 6,1 registradas na meia hora seguinte.
Dois eventos dessa magnitude, tão próximos um do outro, alimentam uma pergunta que aparece com frequência depois de semanas assim: os terremotos estão realmente ficando mais frequentes? A resposta, segundo os dados oficiais de monitoramento sísmico, é não — e o motivo pelo qual a pergunta continua sendo feita, ano após ano, diz mais sobre como o cérebro humano avalia risco do que sobre o comportamento real da crosta terrestre.

O que aconteceu na Colômbia e na Indonésia
O terremoto colombiano teve seu epicentro a cerca de 5 km ao sul de San José del Palmar, no Chocó, região de floresta tropical na costa do Pacífico colombiano. A profundidade do evento — em torno de 100 a 110 km — é tecnicamente classificada como intermediária, e ajuda a explicar por que o abalo foi sentido em áreas muito distantes do epicentro, incluindo a capital Bogotá: ondas sísmicas originadas em maior profundidade se propagam por uma área de superfície mais ampla, ainda que percam parte de sua intensidade destrutiva concentrada. O evento foi causado pela subducção da placa de Nazca sob a placa Sul-Americana — o mesmo processo geológico de longo prazo responsável pela formação da cordilheira dos Andes, e que torna toda a costa do Pacífico latino-americano uma das regiões mais sismicamente ativas do planeta. O presidente colombiano Abelardo de la Espriella decretou estado de emergência nacional diante da escala dos danos: mais de 74 mil residências afetadas, cinco aeroportos e 44 sistemas de abastecimento de água prejudicados.
Na Indonésia, o terremoto de magnitude 7,7 teve epicentro a cerca de 68 km a noroeste da cidade de Ende, na ilha de Flores, a uma profundidade rasa de aproximadamente 10 km — o que tende a produzir sacudidas mais intensas na superfície próxima ao epicentro, e é também o motivo pelo qual esse tipo de evento costuma gerar alerta de tsunami, como ocorreu neste caso. A Indonésia se localiza no chamado Anel de Fogo do Pacífico, cinturão de fronteiras de placas tectônicas que concentra a maior parte da atividade sísmica e vulcânica do mundo; a mesma região próxima a Flores já havia sido palco de um terremoto extremamente destrutivo em dezembro de 1992, com mais de 2.500 mortes.

O que os números globais de 2026 realmente mostram
Apesar da proximidade temporal entre os dois eventos e da cobertura intensa que geraram, os registros sísmicos globais de 2026 não indicam uma frequência anormal de terremotos fortes. Até o momento, o ano contabiliza cerca de nove terremotos de magnitude 7,0 ou superior — um número consistente com a média histórica, não acima dela. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a agência responsável pelo monitoramento sísmico de referência mundial, a expectativa de longo prazo, baseada em registros que remontam a cerca de 1900, é de aproximadamente 15 terremotos de magnitude 7 e um de magnitude 8 ou mais por ano.
O USGS mantém uma resposta institucional permanente para a pergunta “estamos tendo mais terremotos do que o normal?” — sinal de que essa dúvida ressurge de forma recorrente, ano após ano, geralmente após períodos com eventos de grande visibilidade midiática. A posição da agência é direta: “um aumento ou diminuição temporária na sismicidade faz parte da flutuação normal das taxas de terremotos.” Segundo o histórico da própria agência, essa variabilidade natural pode ser considerável — o ano de 2010, por exemplo, registrou 23 terremotos de magnitude 7 ou mais, enquanto 1988 e 1989 tiveram apenas 7 e 6, respectivamente, sem que isso representasse uma mudança real e sustentada no comportamento geológico do planeta.
Por que o catálogo de terremotos parece estar crescendo — mesmo sem mais terremotos
Uma parte da confusão pública tem uma explicação técnica direta, também reconhecida pelo próprio USGS: os catálogos oficiais de terremotos, como o ComCat mantido pela agência, de fato registram um número crescente de eventos ao longo das décadas — mas isso reflete principalmente a expansão da rede global de sismômetros, não um aumento real na atividade da Terra. O National Earthquake Information Center do USGS hoje localiza cerca de 20 mil terremotos por ano em todo o mundo, uma média de 55 por dia; a maior parte deles é de magnitude baixa demais para ser sentida por qualquer pessoa, e só é detectada porque existem hoje muito mais instrumentos de monitoramento espalhados pelo planeta do que havia há algumas décadas. Um terremoto de magnitude 4 na Indonésia em 1970 provavelmente não seria registrado com precisão; um terremoto equivalente hoje é catalogado quase instantaneamente.
A explicação que está na cabeça, não na crosta terrestre
Se os dados sísmicos não sustentam a ideia de um planeta geologicamente mais instável, o que explica a sensação tão difundida — e recorrente — de que “os terremotos estão aumentando”? A explicação mais robusta não vem da geologia, mas da psicologia cognitiva: um mecanismo mental conhecido como heurística da disponibilidade, descrito originalmente pelos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman nos anos 1970. Segundo esse princípio, as pessoas tendem a estimar a frequência ou probabilidade de um evento com base na facilidade com que conseguem se lembrar de exemplos dele — não com base em uma contagem estatística real. Eventos recentes, vívidos, emocionalmente intensos e amplamente noticiados ficam muito mais disponíveis na memória do que eventos antigos ou distantes, o que faz com que pareçam mais frequentes do que de fato são.
Terremotos como os da Colômbia e da Indonésia são exatamente o tipo de evento que a heurística da disponibilidade distorce com mais força: são dramáticos, geram imagens fortes, envolvem perda de vidas em grande escala e recebem cobertura contínua por dias. Dois desses eventos acontecendo na mesma semana são suficientes para que a mente humana — sem fazer nada de errado do ponto de vista funcional, apenas usando um atalho cognitivo que normalmente é útil — generalize a partir de uma amostra pequena e recente para uma conclusão sobre uma tendência de longo prazo, que exigiria, na verdade, olhar para décadas de dados, não para duas semanas de manchetes.
O que fica
Os terremotos da Colômbia e da Indonésia são tragédias reais, com destruição e perda de vidas que não dependem de nenhuma estatística global para serem graves — cada uma dessas mortes e cada uma dessas casas destruídas é um evento concreto, não uma abstração de catálogo. Mas a pergunta “os terremotos estão aumentando no mundo todo” é uma pergunta diferente, sobre um padrão de longo prazo, e a resposta dos dados disponíveis hoje é que não há evidência disso: 2026 está dentro da faixa histórica normal de atividade sísmica, segundo o USGS e o volume de eventos registrados até agora. O que parece ter aumentado não é a frequência de terremotos fortes — é a velocidade e a intensidade com que cada um deles chega até nós, e a facilidade com que dois eventos próximos no tempo podem, na cabeça de qualquer pessoa, parecer uma tendência.
Fontes citadas neste artigo:
- U.S. Geological Survey — “Why are we having so many (or so few) earthquakes? Has naturally occurring earthquake activity been increasing?”: https://www.usgs.gov/faqs/why-are-we-having-so-many-or-so-few-earthquakes-has-naturally-occurring-earthquake-activity
- Wikipedia — “2026 Colombia earthquake”: https://en.wikipedia.org/wiki/2026_Colombia_earthquake
- ABC News — cobertura do terremoto na Colômbia (balanço de mortos e danos): https://abcnews.com/International/colombia-earthquake-rescue-operations-continue-224-dead/story?id=135571163
- ColombiaOne — explicação tectônica do terremoto (subducção da placa de Nazca): https://colombiaone.com/2026/08/10/colombia-nazca-plate-subduction-may-have-caused-earthquake/
- Al Jazeera — cobertura do terremoto de magnitude 7,7 na Indonésia (15 de agosto de 2026): https://www.aljazeera.com/news/2026/8/15/at-least-two-killed-as-magnitude-7-7-quake-hits-indonesia
- PlainQuake — catálogo estatístico de terremotos de 2026 (contagem de eventos por magnitude): https://plainquake.com/year/2026
- United States Geological Survey — mapa de intensidade sísmica (“Did You Feel It”) do terremoto da Colômbia, via Wikimedia Commons: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:2026-08-10_San_José_del_Palmar,_Colombia_M7.4_earthquake_intensity_map_(USGS).jpg (domínio público)
- United States Geological Survey — esquema de zona de subducção: https://www.usgs.gov/media/images/subduction-zone-schematic (domínio público)