Energia escura é uma ilusão? Novo estudo questiona se o universo está mesmo acelerando

Desde o final dos anos 1990, uma das certezas mais repetidas da cosmologia moderna é que o universo não está apenas se expandindo — está se expandindo cada vez mais rápido, empurrado por uma misteriosa “energia escura” que corresponderia a cerca de 70% de todo o conteúdo do cosmos. Essa conclusão, baseada na observação de supernovas distantes, rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2011. Um novo estudo publicado em setembro de 2026 na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society reabre essa discussão ao argumentar que a aceleração cósmica observada pode ser, em parte, uma ilusão estatística — não um fenômeno físico real.

A pesquisa foi liderada por Subir Sarkar, do Rudolf Peierls Centre for Theoretical Physics da Universidade de Oxford, em colaboração com Animesh Sah e Mohamed Rameez, do Tata Institute of Fundamental Research, em Mumbai. A equipe reanalisou um dos maiores conjuntos de dados disponíveis sobre o tema: mais de 1.700 supernovas do tipo Ia, reunidas no chamado catálogo Pantheon+.

O que são supernovas do tipo Ia e por que elas guiam a cosmologia

Supernovas do tipo Ia são explosões estelares que, por resultarem de um mecanismo físico bastante uniforme (a explosão termonuclear de uma estrela anã branca ao ultrapassar um limite de massa bem definido), liberam uma quantidade de energia previsível e consistente — o que as tornou conhecidas como “velas-padrão” da astronomia. Como os astrônomos sabem, em teoria, o quanto de luz cada uma dessas explosões deveria emitir, é possível calcular a distância até elas comparando o brilho esperado com o brilho observado da Terra. Foi justamente esse tipo de comparação, aplicada a supernovas muito distantes (e, portanto, muito antigas), que revelou nos anos 1990 que elas pareciam mais fracas do que o esperado — um sinal interpretado como evidência de que a expansão do universo estaria acelerando.

O problema, segundo o novo estudo, é que o brilho intrínseco de uma supernova do tipo Ia não é perfeitamente uniforme — ele varia sutilmente de acordo com a idade e a composição química da estrela progenitora, um efeito conhecido como “evolução estelar populacional”. A equipe de Sarkar aplicou uma correção estatística recentemente proposta para compensar esse efeito de idade e, ao refazer os cálculos de distância com essa correção, descobriu que os dados deixam de sustentar uma aceleração cósmica uniforme em todas as direções do céu.

Uma aceleração “direcional” é um problema para a energia escura

O achado mais intrigante do estudo é que, depois da correção, a aparente aceleração cósmica que sobra nos dados não é uniforme — ela aparece alinhada com a direção do movimento local da Terra e do Sistema Solar através do espaço. Isso é relevante porque a energia escura, no modelo padrão da cosmologia, deveria produzir uma aceleração igual em todas as direções, já que se trata (supostamente) de uma propriedade do próprio espaço-tempo, não de um efeito de perspectiva ligado a para onde nosso planeta está se movendo. Uma aceleração que aponta preferencialmente numa direção é mais compatível com um efeito observacional — como o nosso próprio movimento distorcendo as medidas — do que com uma força cosmológica genuína atuando igualmente sobre todo o universo. “Se esse efeito não for levado em conta”, explicou Sarkar, “ele pode levar à conclusão equivocada de que a taxa de expansão está acelerando.”

Segundo a nova análise, ao remover esse viés, os dados de supernovas passam a ser mais compatíveis com uma expansão cósmica que está, na verdade, desacelerando — o oposto exato do que a cosmologia padrão descreve desde 1998.

Nem de longe é um caso encerrado

É essencial registrar que esse resultado está longe de ser aceito por consenso. O próprio periódico que publicou o estudo de Sarkar também publicou, na mesma edição, um artigo concorrente que contesta diretamente suas conclusões, argumentando que a evidência a favor da aceleração cósmica continua sólida quando outros métodos de correção são aplicados aos mesmos dados. Esse tipo de debate público e simultâneo, dentro do próprio periódico científico, é exatamente o tipo de processo — nada glamoroso, mas rigoroso — que caracteriza uma questão cosmológica genuinamente em disputa, e não uma “farsa” descoberta de repente.

Ajuda a colocar esse episódio em contexto o resultado de uma pesquisa recente com físicos profissionais em todo o mundo (que também cobrimos nesta semana): mesmo antes desse novo estudo, o modelo padrão da cosmologia (ΛCDM) já não tinha apoio majoritário entre os especialistas consultados — em parte por causa de sinais anteriores, vindos do experimento DESI, de que a energia escura pode não ser uma constante ao longo do tempo. O veredito final sobre se a aceleração cósmica é real, parcialmente real ou majoritariamente um artefato estatístico deve vir de levantamentos ainda maiores e mais precisos de supernovas e outros indicadores cosmológicos — com destaque para o Observatório Vera C. Rubin, cujo levantamento de dez anos (o Legacy Survey of Space and Time) é hoje visto pela comunidade como o principal candidato a resolver essa disputa de forma definitiva.

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Fontes: ScienceDaily (07/09/2026) e estudo original de Subir Sarkar, Animesh Sah e Mohamed Rameez, “Monthly Notices of the Royal Astronomical Society”, 2026, volume 549, edição 3, DOI: 10.1093/mnras/stag844, com dados do catálogo Pantheon+ (mais de 1.700 supernovas tipo Ia).

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