Cometa interestelar 3I/ATLAS está “borbulhando” de metanol, e ninguém sabe bem por quê

Em julho de 2025, telescópios de rastreamento identificaram um visitante que não pertence ao nosso Sistema Solar: o objeto 3I/ATLAS, apenas o terceiro cometa de origem interestelar já confirmado, depois do famoso 1I/’Oumuamua (2017) e do 2I/Borisov (2019). Passado mais de um ano de observações, um novo estudo publicado em setembro de 2026 na revista The Astrophysical Journal Letters revelou algo que surpreendeu a própria equipe de pesquisa: o cometa está, nas palavras dos autores, “borbulhando” de metanol — em proporções muito acima do que qualquer cometa nascido no nosso Sistema Solar já apresentou.

A pesquisa foi liderada por Nathan Roth, da American University, usando o Atacama Compact Array do ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), no Chile — um dos conjuntos de radiotelescópios mais sensíveis do mundo para detectar as assinaturas químicas de gases liberados por cometas conforme eles se aproximam do Sol e se aquecem.

O que os números realmente mostram

Para comparar a composição química de cometas, astrônomos costumam usar razões entre diferentes moléculas detectadas no gás liberado pelo núcleo congelado — o chamado coma. Uma das razões mais usadas é metanol em relação ao cianeto de hidrogênio (HCN), porque o HCN é relativamente estável e serve como uma espécie de “régua” de comparação. Em duas datas de observação diferentes, o 3I/ATLAS apresentou razões de metanol/HCN de aproximadamente 70 e 120. Para dar uma ideia de escala: isso coloca o cometa entre os objetos mais ricos em metanol já estudados, superando a abundância de metanol de praticamente todos os cometas conhecidos do nosso próprio Sistema Solar.

Esse não é o primeiro sinal de que o 3I/ATLAS tem uma “impressão digital química” fora do padrão. Observações anteriores feitas pelo telescópio espacial James Webb, quando o cometa ainda estava distante do Sol, já haviam encontrado um coma dominado por dióxido de carbono (CO2) — outra característica atípica em comparação com cometas do Sistema Solar nessa mesma distância, que costumam ser dominados por gelo de água ainda não sublimado. Some-se a isso agora o excesso de metanol, e o quadro que emerge é de um objeto formado — ou pelo menos quimicamente processado — em condições bem diferentes das que moldaram os cometas que orbitam o Sol.

Por que a química de um cometa conta uma história sobre sua origem

Cometas são, em certo sentido, cápsulas do tempo: seus núcleos passaram a maior parte da existência congelados a temperaturas extremamente baixas, o que preserva quase intacta a composição química do gás e da poeira presentes no momento em que se formaram, bilhões de anos atrás. Quando um cometa se aproxima do Sol e começa a aquecer, esses gases congelados sublimam (passam do sólido diretamente para o gasoso) e escapam para o espaço, onde podem ser detectados remotamente por telescópios como o ALMA. Ou seja: medir a composição do coma de um cometa é, na prática, medir a “receita química” do disco de gás e poeira ao redor da estrela onde ele nasceu — só que, no caso de um objeto interestelar como o 3I/ATLAS, essa estrela não é o Sol.

Isso é o que torna cometas interestelares cientificamente valiosos, independentemente de qualquer especulação sobre vida extraterrestre: eles são, até onde a tecnologia atual permite, a única forma prática de estudar diretamente a química de formação planetária de outro sistema estelar, sem depender apenas de modelos teóricos ou de observações indiretas via espectroscopia de exoplanetas distantes. Como resumiu Roth, autor principal do estudo: “observar o 3I/ATLAS é como tirar uma impressão digital de outro sistema solar. Os detalhes revelam do que ele é feito, e ele está borbulhando de metanol de um jeito que simplesmente não costumamos ver.”

O que ainda não sabemos

O excesso de metanol não tem, até agora, uma explicação única e definitiva. Entre as hipóteses discutidas pela comunidade astronômica estão diferenças na temperatura e na composição do disco protoplanetário original do cometa, processamento químico por radiação cósmica durante os provavelmente bilhões de anos que o objeto passou viajando pelo espaço interestelar antes de cruzar o Sistema Solar, ou uma combinação dos dois fatores. Distinguir entre essas possibilidades vai exigir mais observações — e, provavelmente, comparações futuras com outros cometas interestelares que venham a ser descobertos, à medida que telescópios de rastreamento como o Vera C. Rubin Observatory, que entrou em operação plena em 2025, aumentam a taxa de detecção desse tipo de objeto raro. Cada novo visitante interestelar é, hoje, um dado científico praticamente insubstituível.

Vale lembrar por que cometas interestelares são tão raros de se observar em primeiro lugar. Estima-se que existam trilhões de objetos desse tipo vagando pela galáxia, ejetados dos sistemas planetários onde se formaram por interações gravitacionais com planetas gigantes — algo que provavelmente também aconteceu no início da história do nosso próprio Sistema Solar, quando corpos gelados foram expulsos para o espaço interestelar. Mas, apesar desse número enorme, a maioria passa a distâncias tão grandes do Sol, ou em trajetórias tão pouco favoráveis, que nunca chega a ser detectada. Só descobrimos um objeto interestelar quando ele cruza, por acaso, uma região do céu já bem monitorada por telescópios de rastreamento — e mesmo assim, em quase uma década de operação desse tipo de levantamento, apenas três confirmados foram encontrados até agora.

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Fontes: ScienceDaily (09/09/2026) e estudo original de Nathan Roth et al., “The Astrophysical Journal Letters”, 2026, volume 999, edição 2, artigo L32, DOI: 10.3847/2041-8213/ae433b, com dados do Atacama Compact Array (ALMA/NRAO).

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