Cientistas encontram um vasto sistema de magma escondido bem abaixo da superfície de Marte

Marte é frequentemente descrito como um planeta geologicamente “morto”: sem placas tectônicas ativas como as da Terra, sem vulcanismo em atividade visível há bilhões de anos, um mundo congelado no tempo. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Nature Astronomy, conduzido por pesquisadores das universidades de Oxford e Bristol, no Reino Unido, sugere que essa imagem está incompleta: bem abaixo da superfície marciana, existiria um sistema de magma antigo e vasto — possivelmente se estendendo por centenas ou milhares de quilômetros através do hemisfério norte do planeta.

A descoberta não vem de uma nova sonda, mas de uma nova análise de dados que já estavam disponíveis: os registros sísmicos coletados pelo módulo InSight da NASA, que operou na superfície de Marte entre 2018 e 2022 até seus painéis solares ficarem cobertos demais de poeira para continuar gerando energia.

Como se “escuta” o interior de um planeta sem vulcões ativos

Sem placas tectônicas em movimento constante, Marte não tem terremotos do tipo que sacudem regularmente a Califórnia ou o Japão. Mas o InSight foi projetado justamente para captar os tremores mais sutis do planeta — os chamados “martemotos”, causados por rocha se ajustando lentamente sob tensão acumulada, e também as vibrações geradas por impactos de meteoroides na superfície. Ao estudar como essas ondas sísmicas viajam pelo interior do planeta — mudando de velocidade e de trajetória conforme atravessam diferentes tipos de rocha —, é possível reconstruir, de forma indireta, um mapa das camadas internas de um planeta inteiro sem nunca perfurá-lo.

A equipe liderada pelo pesquisador Tobermory Mackay-Champion (hoje na Universidade de Bristol), com a colaboração do professor Jon Wade, identificou nesses dados sísmicos uma fronteira antes inexplicada a cerca de 24 quilômetros de profundidade. Combinando modelagem termodinâmica com uma análise estatística que comparou centenas de composições possíveis de rocha, os pesquisadores concluíram que a rocha abaixo dessa fronteira é do tipo ultramáfica (rica em ferro e magnésio, com baixo teor de silício), enquanto a rocha acima é máfica (com teor de silício mais alto). Essa diferença sistemática de composição em duas camadas bem definidas é a assinatura clássica de magma que se acumulou e, ao longo de muito tempo, se separou gradualmente em materiais diferentes conforme esfriava — ou seja, evidência de uma história vulcânica muito mais longa e complexa do que a imagem de “planeta morto” sugere.

Um sistema vulcânico sem as placas tectônicas que normalmente o explicariam

O que torna esse achado particularmente interessante — e não apenas mais uma confirmação de que Marte teve vulcões — é a escala. Segundo os autores, a camada magmática enterrada pode se estender por centenas ou até milhares de quilômetros pelo hemisfério norte marciano, formando um sistema interligado, e não vulcões isolados espalhados aleatoriamente. Na Terra, sistemas vulcânicos dessa escala e continuidade normalmente estão associados a placas tectônicas — o movimento de placas cria zonas de subducção e pontos quentes que alimentam cadeias vulcânicas inteiras. Marte nunca teve tectônica de placas como a terrestre (ou, se teve, foi há tanto tempo e de forma tão diferente que praticamente não deixou vestígios equivalentes). Isso significa que o planeta encontrou uma maneira alternativa de sustentar “magmatismo transcrustal” — a movimentação e diferenciação de magma através da crosta — usando outro mecanismo geológico, ainda não totalmente compreendido.

Por que isso interessa a quem pensa sobre habitabilidade

A implicação mais discutida do estudo vai além da geologia pura: calor vulcânico sustentado, combinado com rocha em processo constante de reciclagem, é justamente o tipo de ingrediente que interessa a quem estuda se um planeta pode ter mantido condições favoráveis à vida por períodos longos — não apenas água líquida na superfície por um tempo curto, mas fontes de energia química e térmica estáveis no subsolo, como as que sustentam ecossistemas ao redor de fontes hidrotermais nos oceanos terrestres. Os próprios autores são cautelosos ao afirmar isso: o estudo não encontrou evidência direta de vida, nem afirma que Marte foi habitável — ele mostra que “uma evolução crustal complexa e reciclagem geológica extensa podem ser possíveis mesmo em planetas sem tectônica de placas ao estilo terrestre”, o que amplia o leque de mundos — inclusive fora do Sistema Solar — que talvez mereçam ser reconsiderados sob esse critério.

Vale notar que esse tipo de reconstrução geológica via ondas sísmicas é a mesma lógica geral usada para entender estruturas escondidas no interior da própria Terra, como as chamadas LLSVPs no limite entre núcleo e manto — tema que já exploramos em profundidade neste site. A diferença é que, no caso de Marte, os cientistas tiveram à disposição apenas quatro anos de dados de um único sismômetro, e ainda assim conseguiram reconstruir uma estrutura geológica de escala continental. É um bom exemplo de como missões espaciais relativamente modestas em duração podem continuar gerando descobertas anos depois de encerradas, só de dados sendo reanalisados com novas técnicas.

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Fontes: ScienceDaily (01/09/2026) e estudo original de Tobermory Mackay-Champion, Jon Wade et al., “Nature Astronomy”, 2026, DOI: 10.1038/s41550-026-02907-5, com dados sísmicos do módulo InSight da NASA (2018-2022), Universidades de Oxford e Bristol.

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