Pesquisadores da Hebrew University of Jerusalem descobriram que materiais supercondutores ultrafinos considerados relativamente simples escondem, na verdade, dois estados supercondutores distintos operando ao mesmo tempo e interagindo fortemente entre si. O estudo, publicado na revista Physical Review Letters, descreve o fenômeno com uma analogia direta dos próprios autores: “é um pouco como ouvir o que parece ser um único cantor, apenas para descobrir que na verdade é um dueto perfeitamente sincronizado”.
Os materiais por trás da descoberta
O foco principal da pesquisa foi o disseleneto de nióbio (NbSe₂), um material que, em sua forma ultrafina — camadas de poucos átomos de espessura —, já era conhecido por suas propriedades supercondutoras, mas cuja estrutura interna era considerada, até agora, relativamente homogênea. Um material relacionado, o dissulfeto de tântalo (TaS₂), apresentou comportamento semelhante nos experimentos, reforçando que o fenômeno não é uma peculiaridade isolada de um único composto.
A equipe, formada pelo doutorando Shahar Simon, a mestranda Maya Klang, e os professores Oded Millo e Hadar Steinberg, do Racah Institute of Physics e do Center for Nanoscience and Nanotechnology da Hebrew University of Jerusalem, foi além: os dados sugerem que, em sua forma mais espessa, o NbSe₂ pode abrigar não apenas dois, mas três ordens supercondutoras distintas interagindo simultaneamente.
Como algo assim passou despercebido até agora
A resposta está na sensibilidade do instrumento necessário para enxergar esse tipo de detalhe. A equipe utilizou espectroscopia de tunelamento de altíssima sensibilidade — uma técnica capaz de sondar o comportamento eletrônico de um material praticamente átomo por átomo. Métodos de medição mais convencionais, usados em estudos anteriores desses mesmos materiais, simplesmente não tinham resolução suficiente para separar as duas “vozes” supercondutoras que, juntas, pareciam formar um único sinal uniforme.
Por que isso importa para a computação quântica
Supercondutores ultrafinos como o NbSe₂ são candidatos ativos para compor componentes de computadores quânticos, eletrônica de altíssima eficiência energética e sensores de precisão. Entender que esses materiais não são “blocos uniformes”, mas sim sistemas com múltiplas ordens supercondutoras interagindo, muda a forma como engenheiros de materiais podem projetar dispositivos baseados neles: em vez de tratar o material como uma caixa-preta com uma única propriedade supercondutora, torna-se possível, em tese, manipular cada uma das ordens internas separadamente para obter comportamentos mais específicos e controláveis.
Uma metáfora que também é um método
A analogia do “dueto perfeitamente sincronizado” não é apenas uma forma didática de explicar a descoberta — ela reflete literalmente o desafio metodológico enfrentado pelos pesquisadores. Separar dois sinais supercondutores que se sobrepõem quase perfeitamente exige instrumentos capazes de distinguir variações sutilíssimas de energia, da mesma forma que separar duas vozes cantando em uníssono exigiria um ouvido — ou, neste caso, um espectrômetro — extraordinariamente refinado.
Fontes
ScienceDaily, “Scientists discover two superconducting states hiding as one” (28 de agosto de 2026); phys.org, “Sensitive measurements uncover dual superconducting states in atom-thin NbSe₂ and TaS₂”; estudo original de Simon, Klang, Millo e Steinberg, Hebrew University of Jerusalem, publicado na revista Physical Review Letters (agosto de 2026).