Experimente parar por um segundo e prestar atenção ao que está acontecendo na sua cabeça agora mesmo. Para muita gente, há uma voz narrando o processo — algo como “ok, vou ler essa frase e depois pensar no que ela quer dizer”. Mas para outras pessoas, simplesmente não há nada parecido com uma voz. O pensamento acontece, decisões são tomadas, problemas são resolvidos — só que sem nenhum monólogo interno acompanhando o processo. Em 2024, dois pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison, Johanne Nedergaard e Gary Lupyan, deram um nome técnico a essa ausência: anendofasia. O estudo que cunhou o termo virou uma das descobertas mais compartilhadas de divulgação científica do ano. O que quase ninguém repetiu depois foi que, um ano mais tarde, outro pesquisador publicou uma crítica direta questionando se o estudo original realmente provou que a anendofasia existe — e a resposta, hoje, é mais incerta do que a cobertura popular sugere.
O que o estudo de 2024 realmente mediu
Nedergaard e Lupyan partiram de um problema prático: como comparar cientificamente pessoas que “têm” e que “não têm” voz interior, se a única forma de acessar essa experiência é perguntando à própria pessoa? A solução foi rastrear mais de 1.000 pessoas usando um questionário chamado Internal Representations Questionnaire (IRQ), que mede a frequência autorrelatada de fala interna, e então selecionar dois grupos nos extremos dessa distribuição: 46 pessoas com baixíssima frequência relatada de voz interior e 47 pessoas com frequência alta. Os dois grupos passaram por quatro tarefas cognitivas diferentes, desenhadas para testar processos que a literatura já associava ao uso de fala interna — incluindo memória de trabalho verbal (lembrar uma sequência de itens por um curto período) e julgamento de rima (decidir rapidamente se duas palavras rimam).
O resultado foi seletivo, não generalizado: o grupo de baixa fala interna teve desempenho pior especificamente nas tarefas que dependem de processamento fonológico — memória verbal de trabalho e julgamento de rima —, enquanto tarefas que não dependem de “ouvir” palavras internamente (como alternância entre tarefas, ou julgamentos perceptivos categóricos) não mostraram diferença entre os grupos. Um achado adicional reforçou a interpretação: quando os participantes podiam falar em voz alta durante a tarefa de memória, a diferença entre os grupos desaparecia — sugerindo que a fala interna funciona como uma espécie de “ensaio mental” que auxilia a memória verbal, e que quem não tem esse recurso apenas perde parcialmente esse auxílio, sem qualquer prejuízo cognitivo mais amplo. Os autores descreveram isso como a primeira evidência comportamental cuidadosa de um fenômeno que, até então, só havia sido documentado por autorrelato.
A crítica que quase ninguém repetiu: o estudo realmente provou ausência total?
Em 2025, o pesquisador Andreas Lind publicou, na mesma revista *Psychological Science*, uma réplica direta ao estudo — não questionando os dados coletados, mas a interpretação central que os dados sustentariam. O argumento de Lind é preciso: o estudo de Nedergaard e Lupyan mede frequência autorrelatada baixa de fala interna, não ausência comprovada dela — e essas são coisas diferentes. Segundo Lind, em nenhum momento do artigo original fica demonstrado que algum participante específico relatou uma ausência completa de fala interna; o que existe é um grupo posicionado na extremidade inferior de uma escala de frequência, o que é uma categoria estatisticamente diferente de “não tem voz interior nenhuma”.
Lind vai além e aponta que os próprios autores do estudo original reconhecem essa limitação em outro trecho do texto — admitindo que o questionário usado “não consegue determinar se variações na frequência autorrelatada de fala interna se devem a diferenças reais de frequência ou a diferenças na capacidade da pessoa de perceber sua própria fala interna” —, o que, para Lind, contradiz a forma como a conclusão do estudo acabou sendo apresentada e amplamente divulgada, como se a existência de pessoas com ausência total de voz interior tivesse sido demonstrada. Ele também reexamina os relatos qualitativos usados como evidência de apoio no estudo original e argumenta que, olhando de perto, algumas das pessoas citadas como exemplo de “sem voz interior” descreviam, na verdade, formas mais sutis ou menos verbais de fala interna — não uma ausência genuína. A conclusão de Lind é direta: não há, no estudo, evidência convincente da existência da anendofasia como ausência completa e comprovada de fala interna.
Uma terceira posição, publicada ainda mais recentemente
O debate não parou na réplica de Lind. Em 2026, o pesquisador Russell Hurlburt — que já havia contribuído com os dados de amostragem de experiência usados como referência no debate — publicou um comentário adicional propondo uma forma diferente de entender o desacordo entre os dois lados. Segundo Hurlburt, o problema é metodológico e conceitual ao mesmo tempo: ele distingue entre estudar a anendofasia como um “construto” (um conceito teórico que se mede indiretamente, por questionários e inferência estatística — a abordagem de Nedergaard e Lupyan) e estudá-la como um “fenômeno” (uma experiência vivida que precisa ser descrita com fidelidade direta, momento a momento, não inferida de médias de grupo). Para Hurlburt, o erro do estudo original foi tratar a anendofasia como um construto durante a coleta de dados, mas tirar conclusões como se fosse sobre o fenômeno em si — uma mistura de abordagens que enfraquece a conclusão final. A posição dele, no entanto, não é a mesma de Lind: Hurlburt considera provável que existam pessoas genuinamente anendofásicas, ou pelo menos “majoritariamente anendofásicas” — mas argumenta que hoje não é possível, com o desenho metodológico usado, distinguir com segurança entre alguém que não tem fala interna nenhuma e alguém que raramente a percebe.
O que fica, então
Não existe hoje um consenso fechado sobre se a anendofasia, no sentido de ausência total e comprovada de fala interna, foi de fato demonstrada cientificamente — e isso é diferente de dizer que o fenômeno não existe. O que existe com solidez é um achado comportamental real e replicável: pessoas que relatam frequência muito baixa de fala interna têm, mensuravelmente, mais dificuldade em tarefas específicas que dependem de processamento fonológico, como lembrar sequências de palavras ou julgar rimas rapidamente — e essa dificuldade desaparece quando a fala é permitida em voz alta, o que é uma evidência genuína de que a fala interna cumpre uma função cognitiva real para quem a utiliza com frequência. O que está em aberto é a interpretação mais forte e mais divulgada — a de que existiria uma categoria bem definida de pessoas com ausência total de vida mental verbal — que, segundo a crítica metodológica de Lind e a reformulação conceitual de Hurlburt, ainda não foi estabelecida com o rigor que a cobertura popular do tema sugeriu. Este não é um caso de um estudo “certo” contra um estudo “errado”: é ciência funcionando como deveria, com uma alegação nova sendo testada, questionada e refinada por pesquisadores diferentes ao longo de mais de um ano — um processo que, na prática, quase nunca aparece na cobertura de divulgação científica que só reporta o resultado inicial mais chamativo.
Fontes citadas neste artigo:
- Nedergaard, J. S. K., & Lupyan, G. (2024). “Not Everybody Has an Inner Voice: Behavioral Consequences of Anendophasia.” *Psychological Science*, 35(7). https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/09567976241243004
- Lind, A. (2025). “Are There Really People With No Inner Voice? Commentary on Nedergaard and Lupyan (2024).” *Psychological Science*, 36(9). https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/09567976251335583
- Hurlburt, R. T. (2026). “Fidelity Versus Validity Using Anendophasia as an Example: Commentary on Nedergaard and Lupyan (2024) and Lind (2025).” *Psychological Science*. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/09567976251413525
- The Unseen Mind — resumo da metodologia e achados do estudo original: https://theunseenmind.org/research/nedergaard-lupyan-2024-anendophasia
- Psychology Today — “Silent Minds: Exploring the Absence of Inner Speech”: https://www.psychologytoday.com/us/blog/mind-unseen/202508/silent-minds-exploring-the-absence-of-inner-speech