Como a internet realmente atravessa os oceanos — e por que ela pode ser cortada

Quando você faz uma videochamada com alguém do outro lado do mundo, envia um e-mail para outro continente ou acessa um servidor hospedado nos Estados Unidos estando no Brasil, quase nada disso passa por satélite. Praticamente toda essa informação viaja através de cabos de fibra óptica, mais finos que uma mangueira de jardim, deitados no fundo do oceano. Existem hoje cerca de 550 desses cabos em operação no mundo, somando aproximadamente 1,4 milhão de quilômetros — o suficiente para dar mais de 30 voltas ao redor da Terra —, e por eles passa cerca de 99% de todo o tráfego intercontinental de internet. Os satélites, que muita gente imagina como a espinha dorsal da rede global, cobrem uma fração marginal disso, útil principalmente para conectar regiões remotas, não para sustentar o volume de dados que o mundo troca todos os dias.

Essa infraestrutura ficou décadas invisível ao público — um detalhe técnico que funcionava sem chamar atenção. Isso mudou. Entre novembro de 2024 e o início de 2026, uma sequência de cortes de cabos no Mar Báltico, no Mar Vermelho e perto de Taiwan tirou essa rede submarina do anonimato e a transformou em tema de segurança nacional, com a OTAN patrulhando ativamente uma das rotas mais movimentadas da Europa. Entender como essa rede funciona — e o que de fato a ameaça — exige separar dois problemas bem diferentes: a fragilidade física real dessa infraestrutura, e a disputa geopolítica que se instalou em cima dela.

Como um fio do tamanho de uma mangueira conecta continentes

Um cabo submarino de telecomunicações é, no núcleo, um punhado de fibras de vidro de sílica — cada uma pouco mais grossa que um fio de cabelo — por onde pulsos de luz carregam a informação. Ao redor desse núcleo se acumulam camadas de proteção: isolamento, condutores de cobre (que transportam a energia elétrica que alimenta o cabo ao longo de toda a rota, tipicamente cerca de 20 mil volts aplicados a partir das duas extremidades), reforço de aço, e um revestimento externo de polietileno de grau naval. Sem blindagem adicional, o cabo tem cerca de 20 milímetros de diâmetro; em trechos rasos e mais expostos a âncoras e redes de pesca, recebe uma camada extra de armadura que pode levar o diâmetro a 50 milímetros ou mais.

A luz que carrega os dados perde intensidade ao longo da distância — por isso, a cada aproximadamente 70 quilômetros, o cabo tem um amplificador que restaura o sinal, alimentado pela energia elétrica que percorre o próprio cabo. A tecnologia usada, chamada de multiplexação por divisão de comprimento de onda densa (DWDM), permite que múltiplos fluxos de dados independentes trafeguem simultaneamente pela mesma fibra, em comprimentos de onda de luz diferentes — é uma das razões pelas quais um único cabo consegue sustentar um volume gigantesco de tráfego. Instalar um cabo desses é uma operação de engenharia naval especializada, feita por navios cabograveiros que o depositam no fundo do oceano seguindo rotas previamente mapeadas para evitar relevo submarino acidentado, zonas sísmicas conhecidas e áreas de tráfego marítimo intenso — embora, como os incidentes recentes mostram, evitar totalmente essas áreas nem sempre seja possível.

O que realmente causa a maioria dos cortes

A causa mais comum de dano a um cabo submarino não é sabotagem — é uma âncora de navio ou uma rede de arrasto de pesca. Em profundidades de até 200 metros, onde cabos ficam mais próximos da superfície e mais expostos à atividade marítima cotidiana, âncoras e artes de pesca respondem por cerca de 90% dos danos registrados; eventos naturais como terremotos, correntes de turbidez e deslizamentos submarinos respondem pelo restante. No total, a indústria registra algo entre 150 e 200 incidentes de dano a cabos por ano no mundo todo — a maior parte deles rotineira o suficiente para nem virar notícia.

O reparo desses cabos é uma operação especializada e cara. Existem apenas cerca de 60 navios de reparo de cabos em operação no mundo inteiro para atender toda essa demanda global. Em águas rasas, o conserto pode envolver mergulhadores; em águas profundas, o navio precisa localizar o cabo danificado no fundo do oceano, capturá-lo com equipamento específico e içá-lo até a superfície para emendar as extremidades rompidas e reconectá-las. Contratos de nível de serviço da indústria costumam prever um prazo de resposta de 24 horas para o início do reparo, mas a conclusão efetiva pode levar dias ou semanas, dependendo da profundidade, das condições do mar e da disponibilidade de um navio de reparo na região — um recurso finito, historicamente escasso perto de rotas movimentadas onde vários incidentes podem ocorrer ao mesmo tempo.

O caso que tirou os cabos submarinos do anonimato

Em novembro de 2024, dois cabos foram rompidos no Mar Báltico com menos de 24 horas de diferença. No dia 17, o cabo BCS East-West Interlink, que liga a Lituânia à ilha sueca de Gotland, sofreu o que a operadora Arelion descreveu como “não um dano parcial — um dano total”. No dia seguinte, o cabo C-Lion1, o primeiro elo direto de telecomunicações entre a Finlândia e a Alemanha, foi igualmente rompido; a operadora finlandesa Cinia relatou que o cabo havia sido “cortado por força externa”. Os dois pontos de ruptura ficavam a cerca de 100 quilômetros de distância um do outro.

As investigações voltaram-se para o Yi Peng 3, um navio cargueiro com bandeira chinesa que havia saído de um porto russo carregado de fertilizante dias antes, e que passou exatamente pela área dos dois cortes nos horários correspondentes. Rastreamento por satélite mostrou que o navio desligou seu sistema de identificação automática (AIS, que embarcações são obrigadas a manter ativo) por sete horas e meia logo após a passagem pela zona dos danos. Fotografias aéreas mostraram uma de suas âncoras visivelmente danificada. A hipótese mais discutida pelos investigadores é que a tripulação teria arrastado uma âncora pelo fundo do mar por uma distância considerável enquanto o navio seguia em movimento — um método capaz de romper múltiplos cabos ao longo do trajeto sem necessariamente exigir uma ação deliberada e sofisticada de sabotagem, embora especialistas navais tenham questionado se seria fisicamente plausível arrastar uma âncora daquele porte na velocidade em que o navio trafegava.

O desfecho ilustra bem por que atribuir responsabilidade nesses casos é tão difícil. O ministro da Defesa da Alemanha chamou publicamente o episódio de ato de sabotagem; já uma avaliação da inteligência dos Estados Unidos concluiu que os cabos provavelmente não haviam sido cortados de forma deliberada. A Suécia, a Finlândia e a Lituânia abriram investigações criminais próprias — por sabotagem, por interferência em comunicações e por terrorismo, respectivamente —, e o navio ficou ancorado sob monitoramento das marinhas dinamarquesa, sueca e alemã por mais de um mês. Autoridades chinesas permitiram que investigadores europeus embarcassem apenas como observadores, e negaram acesso pleno a promotores suecos. Passado mais de um ano, o caso nunca foi conclusivamente atribuído a acidente ou a ação deliberada — um padrão que se repetiu em episódios semelhantes registrados posteriormente na mesma região.

A resposta: de infraestrutura invisível a prioridade militar

O acúmulo desses incidentes levou a uma mudança de postura visível. Em janeiro de 2025, a OTAN lançou a operação Baltic Sentry, combinando navios, drones e aeronaves de patrulha para monitorar continuamente o Mar Báltico — uma das regiões com maior densidade de cabos submarinos da Europa e, ao mesmo tempo, uma área de tensão geopolítica direta com a Rússia. Taiwan, que enfrentou uma série de cortes de cabos que ligam a ilha ao restante do mundo, endureceu sua legislação para punir cortes deliberados em suas águas territoriais.

Paralelamente à resposta militar, operadoras de telecomunicações e governos vêm investindo em tecnologias de monitoramento mais sofisticadas. O sensoriamento acústico distribuído (DAS) usa pulsos de laser através do próprio cabo de fibra óptica para detectar vibrações anômalas ao longo de toda a sua extensão — uma embarcação arrastando uma âncora próxima ao cabo altera minimamente a forma como a luz reflete internamente, o que permite localizar a origem da perturbação quase em tempo real. Outra abordagem, batizada de Seabed Sentry, usa dispositivos autônomos que permanecem no fundo do mar por meses, utilizando sonar para detectar a presença de embarcações em pontos estratégicos da rota dos cabos. Rotas alternativas também têm sido planejadas: operadoras vêm desviando cabos do Mar da China Meridional para evitar áreas de disputa territorial, e Singapura anunciou planos para aumentar sua conectividade para mais de 50 cabos com múltiplos pontos de chegada, de forma que o tráfego possa ser redirecionado quase instantaneamente caso uma rota específica seja interrompida.

O que isso significa, na prática

A rede de cabos submarinos que sustenta a internet global não tem, hoje, um substituto realista — não existe cenário em que o tráfego intercontinental de dados migre para satélites em volume suficiente para compensar a perda de rotas submarinas críticas, ao menos não com a tecnologia atualmente disponível em escala comercial. Isso torna a resiliência dessa infraestrutura menos uma questão de blindar fisicamente cada cabo contra ataques — o fundo do oceano é vasto demais e os cabos, por natureza, expostos demais para isso ser viável em todos os pontos — e mais uma questão de redundância: garantir que existam rotas alternativas suficientes para que a ruptura de um ou dois cabos não signifique um apagão de comunicação para uma região inteira, como quase aconteceu em episódios anteriores envolvendo países dependentes de um número pequeno de cabos.

O que mudou nos últimos dois anos não foi a vulnerabilidade física em si — cabos submarinos sempre foram cortados por âncoras e redes de pesca, num ritmo de centenas de incidentes por ano, a maioria deles rotineira. O que mudou foi o contexto geopolítico em que esses incidentes passaram a ser interpretados, e a atenção institucional que passaram a receber como resultado. Uma infraestrutura que operou por décadas na sombra da atenção pública agora é tratada, em regiões de tensão como o Báltico e o Mar da China Meridional, como um ativo estratégico digno de patrulha naval — um lembrete de que boa parte da internet global depende, no fim das contas, de um fio fino o suficiente para caber dentro de uma mangueira de jardim, deitado no fundo do mar.


Fontes citadas neste artigo:

  • Kentik — “Diving Deep into Submarine Cables: The Undersea Lifelines of Internet Connectivity”
  • Wikipédia — “2024 Baltic Sea submarine cable disruptions”
  • Olhar Digital — “Internet sob ameaça: a corrida global para proteger cabos submarinos de sabotagem” (abril de 2026)
  • CNN — “Ships, sea drones and AI: How NATO is hardening its defense of critical Baltic undersea cables” (janeiro de 2025)

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