Saturno já era famoso por um enigma atmosférico: desde que a sonda Voyager o fotografou pela primeira vez, em 1981, o planeta exibe no seu polo norte um hexágono perfeito de nuvens, com cerca de 30 mil km de lado — grande o bastante para engolir a Terra dentro dele —, que permanece praticamente inalterado há mais de quatro décadas. Agora, o telescópio espacial Hubble flagrou algo que ninguém esperava: um padrão de dez lados, um decágono, se formando no polo sul do planeta — um hemisfério onde, até pouco tempo atrás, não havia absolutamente nada parecido.
A descoberta, publicada na revista científica Science Advances, foi liderada por Agustín Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco, na Espanha, em parceria com Amy Simon, do Centro Goddard de Voo Espacial da NASA, e Michael Wong, da Universidade da Califórnia em Berkeley. As observações fazem parte do programa OPAL (Outer Planet Atmospheres Legacy) do Hubble, que fotografa os planetas gigantes do Sistema Solar todos os anos há mais de uma década — e contou também com o apoio inesperado de astrônomos amadores, Trevor Barry e Jean-Paul Oger, que vinham documentando mudanças na atmosfera saturniana por conta própria.
Um padrão que está nascendo diante dos nossos olhos
O que torna esse achado cientificamente valioso não é apenas a forma geométrica em si — já seria estranho o bastante um planeta desenvolver “polígonos” atmosféricos —, mas o fato de os cientistas terem conseguido flagrar o processo de formação em tempo real. Vasculhando o acervo de imagens do Hubble, a equipe encontrou sinais fracos do decágono já em 2023, que foram se intensificando ano a ano até se tornarem nitidamente visíveis nas observações de 2025.
Isso é uma virada e tanto em relação ao hexágono do norte: quando a sonda Cassini orbitou Saturno de perto, entre 2004 e 2017, e teve a oportunidade de observar o polo sul do planeta em detalhe, não havia nenhum padrão equivalente ali. Ou seja, o decágono não é um fenômeno permanente que passou despercebido — é algo que genuinamente começou a se formar nos últimos anos, e continua ganhando força.
“O hexágono do norte esteve lá todas as vezes que olhamos, por mais de 40 anos. Esta característica é diferente — parece estar se fortalecendo, e isso nos dá a rara oportunidade de observar um padrão atmosférico gigante se desenvolver”, resumiu Amy Simon, principal investigadora do programa OPAL.
Por que planetas gigantes formam polígonos nas nuvens
Tanto o hexágono quanto o decágono são o que os físicos de atmosfera chamam de “ondas de Rossby” — padrões ondulatórios que se formam quando correntes de jato (faixas de vento muito rápido que circulam o planeta em uma determinada latitude) interagem com a rotação do planeta. Dependendo da velocidade relativa entre a corrente de jato e a rotação do planeta como um todo, essas ondas podem se “travar” em um número fixo de picos e vales — formando, na prática, um polígono estável que gira junto com o planeta, em vez de se dissipar como uma nuvem comum faria.
A grande questão em aberto é por que esse mecanismo levou mais de 40 anos para se manifestar de forma clara no hemisfério sul de Saturno, e por que ele está aparecendo justamente agora. Uma característica extra e intrigante: diferente do hexágono do norte, que parece estável havia décadas, o decágono do sul está em pleno processo de fortalecimento — o que dá aos cientistas uma oportunidade rara de estudar, praticamente ao vivo, como esse tipo de estrutura atmosférica gigante nasce e se estabiliza, algo que pode ajudar a entender também a dinâmica de atmosferas turbulentas mais perto de casa, incluindo a da própria Terra.
Fontes: ScienceDaily (03/09/2026) e Phys.org, ambos citando o estudo original publicado na revista Science Advances, volume 12, edição 36 (2026), DOI 10.1126/sciadv.aee4251.