Quando um banco faz um empréstimo, ele não está te dando dinheiro que já tinha guardado

Existe uma explicação sobre bancos que quase todo mundo aprendeu em algum momento, seja na escola, em um livro de introdução à economia ou em algum vídeo na internet: o banco pega o dinheiro que as pessoas depositam, guarda uma parte em caixa e empresta o resto para outras pessoas. Faz sentido intuitivo — é assim que funcionaria um cofre, um fundo comum, ou qualquer instituição que apenas redistribui recursos que já existem.

O problema é que essa explicação, chamada de “multiplicador monetário simples” nos manuais de economia, não é como o crédito bancário realmente funciona no mundo moderno. Em 2014, o Bank of England — o banco central do Reino Unido — publicou um artigo técnico assinado por três de seus economistas, Michael McLeay, Amar Radia e Ryland Thomas, no Quarterly Bulletin, justamente para corrigir essa confusão de forma explícita e didática. O texto se tornou uma das referências mais citadas do mundo sobre o tema, precisamente por vir de dentro de um banco central, e não de um manual ou de uma corrente de pensamento específica.

Este artigo explica esse mecanismo com base nesse documento e nas regras institucionais que efetivamente limitam a criação de crédito na prática — sem transformar um fato técnico bem documentado em teoria de conspiração, e sem entrar no mérito de políticas monetárias específicas.

O modelo que a maioria aprendeu — e por que ele engana

No modelo do multiplicador monetário simples, a sequência de eventos seria: alguém deposita dinheiro no banco; o banco separa uma fração como reserva; empresta o restante; quem recebe o empréstimo deposita esse dinheiro em outro banco; esse segundo banco repete o processo, e assim por diante, até que a “injeção” inicial de dinheiro se multiplique várias vezes pelo sistema bancário. Nesse relato, o banco central entraria controlando a quantidade de reservas disponíveis no sistema, e essa quantidade determinaria, de cima para baixo, quanto crédito os bancos poderiam conceder.

O artigo do Bank of England é direto ao afastar essa descrição da realidade: “while the money multiplier theory can be a useful way of introducing money and banking in economic textbooks, it is not an accurate description of how money is created in reality” — ou seja, é um recurso didático útil para introduzir o tema, mas não descreve com precisão como o dinheiro é de fato criado. Os autores vão além e afirmam que, na prática, a teoria do multiplicador funciona de forma invertida à sequência normalmente descrita nos livros.

O que acontece de fato: o empréstimo cria o depósito, não o contrário

A correção central do artigo é esta: os bancos comerciais não atuam simplesmente como intermediários que emprestam depósitos que os poupadores colocaram neles, e tampouco “multiplicam” moeda do banco central para criar novos empréstimos e depósitos — no original, “banks do not act simply as intermediaries, lending out deposits that savers place with them, and nor do they ‘multiply up’ central bank money to create new loans and deposits”.

O que acontece, segundo o BoE, é que a maior parte do dinheiro na economia moderna é criada pelos próprios bancos comerciais no momento em que concedem empréstimos — “the majority of money in the modern economy is created by commercial banks making loans”. Tecnicamente, quando um banco aprova um empréstimo, ele registra simultaneamente duas entradas contábeis: um ativo (o direito de receber aquele empréstimo de volta, com juros) e um passivo (um novo depósito na conta de quem recebeu o crédito, disponível para ser usado, transferido ou sacado). Não existe, nesse instante, uma pilha física ou eletrônica de reservas pré-existentes que o banco esteja fisicamente movendo de um lugar para outro — o depósito é criado no exato momento em que o empréstimo é registrado, como duas faces da mesma operação contábil.

Isso explica por que o banco central, hoje, não controla a criação de crédito determinando previamente a quantidade de reservas disponíveis no sistema. Segundo o próprio artigo, bancos centrais modernos normalmente conduzem a política monetária definindo o preço das reservas — ou seja, a taxa de juros — e não a sua quantidade: “rather than controlling the quantity of reserves, central banks today typically implement monetary policy by setting the price of reserves — that is, interest rates”. O Banco da Inglaterra chega a afirmar que, atualmente, não mantém sequer um requerimento formal de reservas no Reino Unido.

Isso significa que os bancos podem criar dinheiro sem limite?

Não. E essa é a parte que costuma se perder quando esse mecanismo é apresentado de forma sensacionalista. O próprio artigo do Bank of England dedica uma seção inteira aos limites reais que restringem a capacidade dos bancos de expandir crédito na prática — o texto descreve essas restrições como decorrentes de três fontes: os próprios bancos, seus clientes tomadores de empréstimo e o banco central.

O primeiro limite é o risco de crédito. Um banco não empresta indiscriminadamente porque cada novo empréstimo carrega o risco concreto de que o tomador não consiga pagar. O artigo é explícito: “individual banks’ lending is also limited by considerations of credit risk. This is the risk to the bank of lending to borrowers who turn out to be unable to repay their loans” — e à medida que um banco expande sua carteira de crédito, a perda média esperada por empréstimo tende a aumentar, tornando novos empréstimos progressivamente menos atrativos.

O segundo limite é regulatório. A regulação prudencial existe justamente para conter riscos que poderiam ameaçar a estabilidade do sistema financeiro como um todo, incluindo exigências sobre as posições de capital e de liquidez dos bancos — no original, “prudential regulation aims to ensure that banks do not take excessive risks when making new loans, including via requirements for banks’ capital and liquidity positions”. Essas exigências de capital são o que ficou mundialmente conhecido como os Acordos de Basileia, hoje na sua terceira geração (Basileia III), implementados no sistema financeiro de cada país pela respectiva autoridade monetária.

O terceiro limite é a própria demanda por crédito, moldada pela política monetária. O preço do empréstimo — a taxa de juros cobrada pelo banco, somada a eventuais tarifas — determina o quanto famílias e empresas estarão dispostas a tomar emprestado. Como o BoE resume, o limite final sobre a criação de dinheiro é a política monetária: ao influenciar o nível das taxas de juros na economia, a autoridade monetária afeta o quanto famílias e empresas desejam se endividar.

Como esse mecanismo se aplica no sistema bancário brasileiro

O Brasil segue a mesma lógica institucional descrita pelo Bank of England, com um instrumento adicional que reforça o controle do Banco Central sobre o crédito: o recolhimento — ou depósito — compulsório. Trata-se de um mecanismo pelo qual as instituições financeiras são obrigadas a manter, junto ao próprio Banco Central do Brasil (BCB), uma fração dos recursos captados dos clientes, variável conforme o tipo de depósito (à vista, a prazo ou poupança) e ajustada periodicamente pela autoridade monetária conforme seus objetivos de política monetária e de estabilidade financeira. O Portal de Dados Abertos do BCB publica e atualiza regularmente as séries históricas desses percentuais, que podem ser consultadas por qualquer pessoa.

Na prática, o compulsório opera de forma semelhante ao papel que os requerimentos de reserva ocupam na descrição de livro-texto: parte do valor captado pelo banco fica indisponível para novas operações de crédito, retida na autoridade monetária. É um mecanismo real e mensurável — mas, como mostra o próprio caso britânico descrito pelo BoE, ele não é a única nem necessariamente a principal alavanca de controle: no Brasil, assim como no Reino Unido, o Banco Central também influencia diretamente a criação de crédito por meio da taxa básica de juros (a Selic) e da regulação prudencial de capital alinhada aos padrões de Basileia III, supervisionando o sistema financeiro para garantir que as instituições mantenham capital próprio compatível com os riscos que assumem ao conceder empréstimos.

O que esse mecanismo não é

Vale destacar o que essa explicação não implica. Não se trata de uma falha oculta do sistema financeiro, nem de um esquema para enganar clientes — é um mecanismo contábil e institucional amplamente documentado, ensinado hoje de forma mais precisa em bancos centrais e em parte crescente da literatura acadêmica, justamente porque a versão simplificada do multiplicador monetário deixou de refletir com exatidão como o crédito é criado nas economias modernas. Também não significa que os bancos possam criar dinheiro sem consequência: cada empréstimo permanece sujeito a risco de inadimplência, a exigências de capital que restringem o volume de operações que uma instituição pode assumir, e à supervisão constante das autoridades monetárias, seja o Bank of England, seja o Banco Central do Brasil.

Entender esse mecanismo não muda o que uma pessoa deveria pensar sobre economia ou sobre onde guardar seu dinheiro — isso não é o objetivo deste texto. O que muda é a compreensão de um processo técnico específico: a de que, ao aprovar um empréstimo, o sistema bancário não está apenas redistribuindo dinheiro que já existia, mas participando ativamente da criação da moeda que circula na economia, dentro de limites regulatórios, de risco e de política monetária que existem precisamente para conter essa capacidade.


Fontes citadas neste artigo:

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