Em junho de 1974, no Blair House — a residência oficial de hóspedes da Casa Branca, em frente ao prédio principal —, autoridades americanas e sauditas assinaram um conjunto de entendimentos que praticamente ninguém fora dos dois governos notou na época. Não houve grande cerimônia pública equivalente a um tratado histórico, nem manchetes anunciando uma guinada na ordem econômica mundial. O que existiu foi uma negociação pragmática, conduzida em meio a uma crise, entre dois países que tinham problemas opostos e complementares: os Estados Unidos precisavam encontrar um destino para os dólares que estavam saindo do país aos borbotões para pagar petróleo mais caro; a Arábia Saudita precisava descobrir o que fazer com uma riqueza súbita que sua economia, ainda pouco industrializada, não tinha como absorver sozinha.
Esse episódio — hoje frequentemente resumido, de forma imprecisa, sob o rótulo genérico de “acordo do petrodólar” — tem uma origem concreta, documentada em telegramas diplomáticos, memorandos do Departamento de Estado e relatórios do governo americano. Parte dele foi pública desde o início. Outra parte só veio à tona em 2016, quando documentos do Tesouro dos Estados Unidos foram desclassificados. Este texto reconstrói o episódio como ele está registrado nas fontes primárias disponíveis: o embargo do petróleo de 1973, a criação da Comissão Conjunta EUA-Arábia Saudita de Cooperação Econômica em 1974 e o papel do secretário do Tesouro William Simon nesse processo.
O embargo que mudou o preço do petróleo
A crise começou com uma guerra. Em 6 de outubro de 1973, Egito e Síria atacaram Israel no que ficou conhecido como Guerra do Yom Kippur. Dias depois, em 16 de outubro, os países árabes exportadores de petróleo reunidos na OPEP elevaram unilateralmente o preço de referência do barril de cerca de 3 dólares para pouco mais de 5 dólares. No dia seguinte, anunciaram cortes de produção. Em 19 de outubro, depois que o governo Nixon pediu ao Congresso uma ajuda militar emergencial de 2,2 bilhões de dólares para Israel, o rei Faisal da Arábia Saudita declarou embargo total das exportações de petróleo saudita para os Estados Unidos.
O efeito sobre os preços foi imediato e severo. Em janeiro de 1974, o barril já era negociado a cerca de 11,65 dólares — quase quatro vezes o patamar pré-crise. O embargo foi suspenso em 18 de março de 1974 (com a notável exceção da Líbia, que manteve sua própria posição), mas o novo patamar de preços não voltou ao nível anterior. Segundo o Federal Reserve, essa combinação de choque de oferta e alta abrupta de preços atingiu uma economia americana que já enfrentava inflação elevada e capacidade industrial no limite, contribuindo para a recessão de 1974-1975 — descrita pelo próprio histórico do Tesouro americano como a pior contração industrial desde a Grande Depressão.
Duas urgências que se encaixavam
O choque do petróleo criou dois problemas espelhados. Para os Estados Unidos e outros países importadores, o problema era a fuga maciça de dólares: bilhões de dólares adicionais saíam anualmente do país só para pagar a conta de petróleo mais cara, ameaçando o balanço de pagamentos americano e a estabilidade do próprio dólar, que havia acabado de perder seu lastro em ouro com o fim dos acordos de Bretton Woods, em 1971.
Para a Arábia Saudita, o problema era o oposto: um excedente de receita em dólares muito maior do que sua economia — então ainda majoritariamente agrária e sem base industrial — conseguia absorver internamente. O reino precisava de um lugar seguro e razoavelmente rentável para aplicar essa riqueza nova, e também buscava garantias de segurança militar numa região que continuava instável depois da guerra de 1973. Os dois problemas apontavam, na prática, para a mesma solução: fazer os dólares sauditas retornarem à economia americana, seja como depósitos bancários, seja como investimentos em títulos públicos, seja como contratos de desenvolvimento executados por empresas dos Estados Unidos.
O encontro de junho de 1974 e a formação da Comissão Conjunta
Em 8 de junho de 1974, em Washington, o então secretário de Estado Henry Kissinger e autoridades sauditas — com o então príncipe herdeiro Fahd bin Abdulaziz à frente da delegação saudita — assinaram uma declaração conjunta estabelecendo as bases da cooperação econômica e de segurança entre os dois países. Documentos do Departamento de Estado registram que, nesse mesmo período, autoridades sauditas mantiveram reuniões específicas com representantes dos departamentos de Estado, Tesouro e Defesa dos Estados Unidos em Washington — uma sequência de conversas que Fahd, em correspondência posterior à Casa Branca no início de 1975, citou explicitamente ao pedir que os “projetos e programas discutidos” naquele mês de junho de 1974 tivessem andamento sem atraso.
Dessas conversas nasceu a U.S.-Saudi Arabian Joint Commission on Economic Cooperation — a Comissão Conjunta EUA-Arábia Saudita de Cooperação Econômica, mais tarde conhecida pela sigla JECOR. Segundo relatório do Government Accountability Office (GAO) dos Estados Unidos, a comissão foi criada “na esteira do embargo árabe do petróleo e dos aumentos de preços” com três objetivos declarados: aprofundar os laços políticos entre os dois países por meio da cooperação econômica; apoiar a industrialização e o desenvolvimento saudita reciclando os petrodólares; e facilitar o fluxo de bens, serviços e tecnologia americanos para a Arábia Saudita. A estrutura era simétrica: de um lado, o secretário do Tesouro dos EUA; do outro, o ministro das Finanças e Economia Nacional saudita — cada um copresidindo a comissão em seu respectivo país.
Dois meses depois desse encontro, em agosto de 1974, o presidente Richard Nixon viajou à Arábia Saudita e se reuniu pessoalmente com o rei Faisal em Jidá, reforçando publicamente a nova relação bilateral pouco antes de deixar o cargo em meio ao escândalo de Watergate.
William Simon e a engenharia da reciclagem de petrodólares
A figura central do lado americano dessa arquitetura foi William E. Simon, que assumiu o Tesouro em 8 de maio de 1974, depois de ter dirigido o Federal Energy Office durante a crise do petróleo. Segundo o histórico oficial do próprio Tesouro americano, Simon persuadiu países exportadores de petróleo a depositar seus excedentes em bancos dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que desencorajava esses mesmos países de fazer investimentos diretos em empresas americanas — uma forma de atrair o capital de volta ao país sem abrir mão do controle sobre ativos estratégicos.
Dentro da Comissão Conjunta, esse desenho ficou ainda mais explícito. Segundo análise do Middle East Institute sobre a JECOR, Simon concebeu a comissão como um mecanismo para canalizar o máximo possível daquele dinheiro de volta aos Estados Unidos, e os contratos de desenvolvimento financiados com recursos sauditas — em áreas como industrialização, treinamento de mão de obra, agricultura, ciência e tecnologia — eram executados majoritariamente por empresas americanas. A comissão funcionava dentro do próprio Departamento do Tesouro, e não da agência de ajuda externa USAID, justamente porque, na prática, era um programa de gestão de dinheiro saudita, financiado pelo próprio governo saudita — o que a livrava da necessidade de aprovação orçamentária do Congresso americano. Em seu auge, no fim da década de 1970, cerca de 250 funcionários públicos americanos chegaram a atuar diretamente junto a ministérios sauditas como parte desses projetos.
Uma parte adicional desse arranjo financeiro só veio a público décadas depois. Documentos do Tesouro americano, mantidos fora do acesso público e desclassificados apenas em 2016 após pedido de informação da agência de notícias Bloomberg, revelaram que parte do entendimento envolvia um mecanismo específico pelo qual a Arábia Saudita podia adquirir títulos da dívida do Tesouro americano fora do sistema normal de leilões públicos abertos a outros compradores — uma exceção que permaneceu confidencial por mais de quarenta anos. O episódio de 2016 é o que deu origem à expressão “acordo secreto” associada a esse capítulo, ainda que o essencial da relação econômica entre os dois países — a criação da Comissão Conjunta, seus objetivos e sua estrutura — sempre tenha sido de conhecimento público.
Petróleo, dólares e o academicismo do “reciclagem”
O estudo acadêmico de referência sobre esse processo é o livro de David E. Spiro, “The Hidden Hand of American Hegemony: Petrodollar Recycling and International Markets”, publicado pela Cornell University Press em 1999. A obra argumenta que a chamada reciclagem dos petrodólares — o retorno da receita petroleira saudita e de outros exportadores ao sistema financeiro americano, sobretudo via títulos do Tesouro — não foi um fenômeno de mercado espontâneo, mas o resultado de decisões políticas deliberadas de ambos os governos, tomadas justamente no período imediatamente posterior ao embargo de 1973 e à formação da Comissão Conjunta em 1974. Essa leitura acadêmica reforça o que os documentos diplomáticos já sugerem: o arranjo entre Washington e Riad não foi um acidente de mercado, mas uma negociação bilateral construída passo a passo, com interesses concretos e mútuos dos dois lados da mesa.
Um acordo entre duas necessidades concretas
O episódio de 1974 não deve ser lido como um plano oculto de dominação nem como um gesto de pura boa vontade entre aliados. Foi, antes, o resultado de uma negociação entre dois governos que enfrentavam problemas reais e urgentes — um com excesso de dólares saindo do país, outro com excesso de dólares entrando sem destino produtivo — e que encontraram, na criação de uma comissão econômica conjunta e na canalização de investimentos sauditas para o sistema financeiro americano, uma solução que atendia a interesses econômicos e de segurança de ambos os lados. Os documentos disponíveis mostram um processo de diplomacia econômica comum à Guerra Fria: pragmático, negociado em etapas, parcialmente público e parcialmente reservado — e que, em meados dos anos 1970, deixou assentadas as bases de uma relação financeira entre os dois países que se manteria por décadas.
Fontes citadas neste artigo:
- Foreign Relations of the United States, 1969–1976, Volume E-9, Part 2, Documents on the Arabian Peninsula — U.S. Department of State, Office of the Historian
- Foreign Relations of the United States, 1969–1976, Volume XXXVI, Energy Crisis, 1969–1974, Chapter 6 — U.S. Department of State, Office of the Historian
- Documento 134: Reaffirmation by Crown Prince Fahd of Saudi Arabia’s Friendship with the United States — FRUS 1969–76, Volume E-9, Part 2
- David E. Spiro, The Hidden Hand of American Hegemony: Petrodollar Recycling and International Markets (Cornell University Press, 1999) — JSTOR
- The U.S.-Saudi Arabian Joint Commission on Economic Cooperation, ID-79-7 — U.S. Government Accountability Office
- Cooperation under the Radar: The US-Saudi Arabian Joint Commission for Economic Cooperation (JECOR) — Middle East Institute
- William E. Simon (1974–1977) — U.S. Department of the Treasury
- Oil Shock of 1973–74 — Federal Reserve History
- 1973 oil crisis — Wikipédia