O universo tem hidrogênio de sobra. Então por que ele está deixando de formar estrelas?

Toda estrela nasce da mesma matéria-prima básica: nuvens de gás hidrogênio que colapsam sob o próprio peso até acender a fusão nuclear em seu núcleo. Por isso, a lógica mais simples seria: se o universo está formando cada vez menos estrelas — e os astrônomos sabem, há tempos, que esse é o caso —, a explicação óbvia seria que o gás está acabando. Uma nova pesquisa que combinou o radiotelescópio chinês FAST com dados do instrumento americano DESI (Dark Energy Spectroscopic Instrument) acaba de mostrar que essa explicação óbvia está, na melhor das hipóteses, incompleta.

O estudo, publicado na revista *Nature Astronomy* em 1º de setembro de 2026 por uma equipe liderada pelos Observatórios Astronômicos Nacionais da China, com participação do Observatório Astronômico de Xangai e da Universidade Jiao Tong de Xangai (além de colaboradores da Ásia, América do Norte e Europa), mediu dois números que, colocados lado a lado, não deveriam bater.

Dois números que não deveriam bater

Primeiro, a taxa de formação de estrelas em todo o universo: usando o levantamento de cerca de 2,5 milhões de galáxias feito pelo DESI, a equipe confirmou que o universo formava estrelas a uma taxa cerca de 2,5 vezes maior há 4,5 bilhões de anos do que forma hoje — um declínio já bem documentado na literatura astronômica, às vezes chamado de “entardecer cósmico”.

Segundo, e aqui está a surpresa: usando o FAST — o maior radiotelescópio de prato único do mundo, localizado na China — para medir diretamente a quantidade de hidrogênio atômico neutro (a forma mais simples e abundante do gás, antes de ele se transformar em hidrogênio molecular, o verdadeiro “combustível” pronto para formar estrelas) presente no universo na mesma época, a equipe encontrou uma reserva apenas cerca de 1,4 vez maior no passado. Ou seja: a formação de estrelas caiu para menos da metade, mas o estoque de matéria-prima básica mal diminuiu.

Se o gás não sumiu, o problema é a conversão

Essa discrepância desloca a pergunta central da astrofísica galáctica: não é mais “por que o gás está acabando”, e sim “por que está ficando cada vez mais difícil transformar o gás disponível em estrelas”. O hidrogênio atômico neutro medido pelo FAST precisa primeiro esfriar e se condensar em hidrogênio molecular — reunido em nuvens densas e frias — antes que qualquer estrela possa de fato se formar a partir dele. O novo resultado sugere que é justamente essa etapa de conversão, e não a disponibilidade de matéria-prima em si, que está travando ao longo da história cósmica.

Os candidatos a explicação incluem fatores que já eram suspeitos, mas nunca haviam sido isolados de forma tão direta: mudanças na densidade e na estrutura das próprias nuvens de gás (nuvens mais difusas condensam com menos eficiência), o efeito de ventos e radiação vindos de estrelas jovens e buracos negros supermassivos ativos, que podem aquecer ou dispersar o gás antes que ele condense, e mudanças na composição química média do gás ao longo do tempo — hidrogênio mais “puro”, com menos elementos pesados forjados por gerações anteriores de estrelas, tende a esfriar e condensar de forma diferente.

O resultado não resolve o mistério de uma vez — mas faz algo tão valioso quanto: elimina a explicação mais simples e óbvia, obrigando os astrofísicos a mirar diretamente no mecanismo real por trás de um dos processos mais fundamentais do cosmos, a própria fábrica de estrelas que, no fim das contas, é também a fábrica de tudo que existe — planetas, elementos químicos e, eventualmente, vida.

Fontes: ScienceDaily (03/09/2026), citando o estudo original publicado na revista *Nature Astronomy* (01/09/2026), DOI 10.1038/s41550-026-02965-9, Observatórios Astronômicos Nacionais da China.

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