O Manuscrito Voynich: Por Que a Criptografia Militar e a IA Falharam Onde um Livro de 600 Anos Ainda Vence

Em algum lugar de Connecticut, guardado a temperatura e umidade controladas na Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos de Yale, existe um livro que ninguém consegue ler. Não porque esteja em uma língua morta e obscura demais para os especialistas — línguas mortas são decifradas o tempo todo. Não porque o texto esteja corrompido ou incompleto. O problema é mais simples e mais perturbador: ninguém sabe, com certeza, se aquilo que está escrito ali é uma língua.

O objeto se chama Manuscrito Voynich, catalogado como Beinecke MS 408. Tem cerca de 240 páginas de pergaminho, cobertas por uma caligrafia fluente e confiante em um alfabeto que não corresponde a nenhum sistema de escrita conhecido, ilustradas com plantas que não existem em nenhum herbário do mundo, diagramas astronômicos que não batem com nenhum céu identificável e figuras nuas banhando-se em tubulações verdes que parecem tubos biológicos. Datado por radiocarbono do início do século XV, o manuscrito resistiu a todas as tentativas sérias de decifração dos últimos cem anos — incluindo as de criptoanalistas que, poucos anos depois, ajudariam a quebrar os códigos militares do Eixo na Segunda Guerra Mundial.

Isso, por si só, já seria uma curiosidade histórica notável. O que torna o caso genuinamente extraordinário é outra coisa: mesmo agora, com processamento de linguagem natural, aprendizado de máquina e bancos de dados de milhões de textos históricos à disposição, o consenso acadêmico sobre o que é o manuscrito continua sendo “não sabemos”. Não por falta de tentativa. Por falta de evidência suficiente para fechar o caso.

Um pergaminho do século XV, comprado por um antiquário no início do XX

O manuscrito recebeu seu nome não de quem o escreveu, mas de quem o trouxe à atenção pública: Wilfrid M. Voynich, um antiquário e negociante de livros raros de origem polonesa, que o adquiriu em 1912 em uma venda discreta feita pela Ordem dos Jesuítas, na região de Frascati, próxima a Roma. Segundo o catálogo da própria Biblioteca Beinecke, o manuscrito havia pertencido antes disso ao imperador do Sacro Império Romano-Germânico Rodolfo II, que teria pago 600 ducados de ouro por ele, e passou depois pelas mãos de colecionadores como Jacobus Horčicky e Georgius Barschius, antes de ir parar no colégio jesuíta onde Voynich o encontrou séculos depois. Após a morte de Voynich em 1930, o manuscrito ficou com sua viúva, Ethel Voynich, e mais tarde foi vendido ao negociante de livros raros H. P. Kraus, que doou a peça a Yale em 1969.

A pergunta óbvia — de que época é o pergaminho, de fato — só recebeu uma resposta com peso científico em 2009, quando pesquisadores da Universidade do Arizona realizaram a datação por radiocarbono de amostras retiradas de diferentes partes do manuscrito. Todos os testes convergiram para o mesmo intervalo: o pergaminho foi produzido entre 1404 e 1438. Análises proteicas posteriores, em 2014, indicaram que o material usado foi pele de bezerro. Isso não prova que o texto tenha sido escrito exatamente nessa janela — um pergaminho em branco pode, em teoria, ficar guardado por décadas antes de ser usado —, mas estabelece um limite físico sólido: o objeto não é uma fraude do século XIX ou XX feita sobre papel moderno. A base material é genuinamente medieval.

Os melhores decifradores de códigos do século XX tentaram e fracassaram

Se existe um grupo de pessoas que deveria, em tese, ser capaz de quebrar qualquer cifra manual produzida por um ser humano antes da era digital, é o grupo de criptoanalistas que definiu o campo da criptografia moderna. E é exatamente esse grupo que tentou o manuscrito Voynich — e não conseguiu.

William Friedman, considerado um dos pais da criptoanálise americana e figura central na quebra de códigos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, dedicou boa parte da carreira, inclusive depois da guerra, a tentar decifrar o Voynich, e criou nos anos 1940 um dos primeiros sistemas sérios de transcrição do texto para viabilizar análise estatística. Sua esposa, Elizebeth Friedman, também criptoanalista respeitada, participou do esforço, assim como Prescott Currier e John Tiltman, outros dois nomes de peso da criptografia militar britânica e americana. Nenhum deles chegou a uma solução aceita.

O fracasso desse grupo específico é significativo porque elimina uma hipótese confortável: a de que “ninguém tentou de verdade” ou que “faltava sofisticação técnica”. Havia sofisticação de sobra. O que faltou foi o ingrediente que toda cifra clássica depende para ser quebrada por análise de frequência: um padrão estatístico que se comporte como uma língua humana real. E é exatamente aqui que o texto do manuscrito — apelidado por pesquisadores de “voynichês” — se torna estranho demais até para os padrões de uma cifra difícil.

Por que o texto não se comporta como nenhuma língua conhecida

Análises estatísticas do voynichês mostram um comportamento contraditório. Por um lado, ele obedece a regularidades típicas de linguagem natural, como a Lei de Zipf (a relação entre a frequência de uma palavra e sua posição em um ranking de frequência). Por outro, exibe características que nenhuma língua natural conhecida apresenta: repetição extrema de certas sequências de caracteres dentro da mesma linha, distribuição pouco natural de “palavras” ao longo das páginas e uma variação estrutural muito baixa se comparada a textos genuínos em latim, italiano ou alemão medievais — os idiomas mais prováveis, dado o contexto geográfico da produção.

Essa combinação intrigante — parece estatisticamente estruturado, mas não como nenhuma língua real — é o motivo pelo qual o campo se divide, até hoje, em pelo menos quatro hipóteses concorrentes e nenhuma delas dominante.

A primeira é que se trata de uma cifra real, ainda não quebrada, sobre um texto em latim, italiano ou outra língua europeia da época. A segunda é que é uma língua natural genuína, mas desconhecida ou registrada em um sistema de escrita não identificado — alguma variante regional, dialeto ou código proto-linguístico perdido. A terceira é que é uma linguagem construída, um sistema artificial criado deliberadamente com suas próprias regras internas, sem correspondência direta com nenhuma língua falada. A quarta, defendida com considerável rigor estatístico pelo pesquisador Gordon Rugg, da Keele University, no Reino Unido, desde meados dos anos 2000, é que o manuscrito é uma fraude elaborada do século XV: um “gibberish” gerado por um método mecânico simples — grades de papel com furos recortados sobrepostas a tabelas de sílabas —, capaz de produzir exatamente o tipo de pseudo-regularidade estatística observada no texto, sem que exista significado nenhum por trás dele. Existe ainda uma hipótese minoritária, menos aceita academicamente, de que o texto seria produto de glossolalia ou de um estado alterado de consciência transcrito foneticamente — mas essa leitura carece do tipo de evidência material e estatística que sustenta as outras quatro.

Nenhuma dessas hipóteses foi refutada de forma conclusiva. Nenhuma foi comprovada de forma conclusiva. É esse impasse, mantido por mais de um século de tentativas de gente muito competente, que faz do Voynich um dos poucos problemas abertos genuínos da paleografia e da criptografia contemporâneas.

O estudo de 2025 que reacendeu o debate — sem resolvê-lo

Em novembro de 2025, a revista acadêmica Cryptologia publicou um estudo do pesquisador e jornalista científico Michael Greshko propondo um método batizado de “cifra Naibbe” — nome derivado de uma palavra italiana do século XIV para um jogo de cartas. A cifra funciona como um sistema de substituição homofônica verbosa: ela pega um texto comum em latim ou italiano, quebra trechos dele em unidades de uma ou duas letras usando um dado para decidir o corte, e depois substitui cada unidade por uma sequência de glifos do voynichês, escolhendo entre seis tabelas de codificação diferentes com o auxílio de uma carta de baralho sorteada. Greshko testou duas variantes do método, uma usando um baralho de tarô de 78 cartas — de origem italiana e já em circulação no século XV — e outra com um baralho comum de 52 cartas.

O resultado chamou atenção porque o texto de saída gerado pela Naibbe reproduz várias propriedades estatísticas importantes do voynichês real: frequência de glifos, comprimento típico das “palavras” e certos padrões posicionais de caracteres dentro das linhas — a primeira cifra de substituição já descrita capaz de oferecer uma explicação sistemática de como um processo desse tipo poderia gerar as propriedades observadas no manuscrito.

Mas é essencial não superdimensionar o que isso significa — e o próprio autor foi explícito sobre esse ponto. Em declaração reproduzida pela revista Newsweek sobre o estudo, Greshko afirmou que “a cifra Naibbe quase certamente não é a forma como o manuscrito foi construído”, ressalvando que o que ela oferece é “uma forma plenamente documentada de transitar de maneira confiável entre o latim e algo que se comporta de modo parecido com o manuscrito Voynich”. Em outras palavras: o estudo demonstra que um método fisicamente plausível para o século XV pode gerar um texto com assinatura estatística parecida com a do Voynich — não que esse tenha sido o método usado. A distinção entre “plausível” e “comprovado” é exatamente o tipo de linha que o problema do Voynich tem, historicamente, tentado apagar, e que o próprio pesquisador se recusou a apagar.

O que o objeto físico revela quando ninguém está tentando ler o texto

Enquanto criptógrafos e linguistas computacionais atacam o problema pelo lado do texto, outra linha de pesquisa vem obtendo avanços mais sólidos ao ignorar completamente o que está escrito e focar no objeto em si. Esse é o campo da codicologia — o estudo dos aspectos físicos de um manuscrito: como os cadernos de pergaminho foram costurados, em que ordem, por quantas mãos diferentes.

A medievalista Lisa Fagin Davis, uma das principais especialistas em manuscritos medievais em atividade, publicou em 2025 uma análise codicológica detalhada do Voynich que revisou uma conclusão de décadas. Nos anos 1970, o criptoanalista Prescott Currier já havia notado que o texto parecia ter sido escrito por duas mãos distintas, com base em diferenças sutis de caligrafia. Davis, revisando a evidência material com métodos mais recentes, identificou sinais estilísticos consistentes com cinco escribas diferentes trabalhando no manuscrito — não dois. Mais notável ainda: o padrão de distribuição do trabalho entre esses escribas não segue a sequência natural das páginas, mas está organizado por bifólio (o par de páginas conectado fisicamente na dobra do caderno), um arranjo que, segundo a própria Davis, ela nunca havia observado em centenas de outros manuscritos medievais que analisou ao longo da carreira.

A conclusão que ela extrai desse padrão é cautelosa, mas significativa: a distribuição de trabalho sugere que o manuscrito “não foi obra de uma única pessoa, louca ou não, nem de um falsário moderno, mas foi criado por uma comunidade de prática”. Essa evidência material não decifra uma única palavra do texto, mas reduz o espaço de hipóteses plausíveis: um objeto produzido por múltiplas mãos coordenadas ao longo do tempo é mais difícil de encaixar na ideia de uma fraude improvisada e rápida — e mais compatível com um projeto textual real, ainda que seu conteúdo continue sendo um mistério completo.

Um mistério que resiste porque a evidência é, ela mesma, ambígua

O que mantém o Manuscrito Voynich como um problema em aberto não é falta de interesse, tecnologia ou talento aplicado a ele. É o contrário: gerações de criptoanalistas de elite, linguistas computacionais e paleógrafos já dedicaram esforço substancial ao problema, e o resultado líquido de um século de tentativas é um conjunto de hipóteses concorrentes, cada uma com evidência parcial a seu favor e nenhuma capaz de explicar tudo. A datação por radiocarbono ancora o objeto no século XV. A análise codicológica de Lisa Fagin Davis sugere produção coordenada por múltiplas mãos. A cifra Naibbe de Michael Greshko mostra que um mecanismo plausível para a época poderia gerar as propriedades estatísticas observadas — sem provar que foi esse o mecanismo usado. A hipótese de fraude de Gordon Rugg mostra que pseudo-regularidade estatística pode ser fabricada deliberadamente — sem provar que foi isso que aconteceu.

Talvez a lição mais honesta que o Voynich ofereça não seja sobre criptografia ou sobre o século XV, mas sobre os limites do método científico diante de evidência genuinamente insuficiente. Nem todo mistério tem uma resposta esperando para ser encontrada com mais poder computacional ou mais anos de estudo. Alguns objetos simplesmente preservam, na sua própria ambiguidade material, o limite exato daquilo que ainda podemos saber sobre o passado.


Fontes citadas neste artigo:

  • Beinecke Rare Book & Manuscript Library, Yale University. “The Beinecke Cipher (Voynich) Manuscript.”
  • Wikipedia. “Voynich manuscript” (datação por radiocarbono pela University of Arizona em 2009, resultado 1404-1438, testes proteicos de 2014, e histórico de tentativas de decifração por William Friedman, Elizebeth Friedman, Prescott Currier e John Tiltman).
  • Davis, Lisa Fagin. “Voynich Codicology.” Manuscript Road Trip, janeiro de 2025.
  • Greshko, Michael. “The Naibbe cipher: a substitution cipher that encrypts Latin and Italian as Voynich Manuscript-like ciphertext.” Cryptologia, publicado online em 26 de novembro de 2025. DOI: 10.1080/01611194.2025.2566408.
  • “This 15th-Century Book Has Defied Translation. Cards and Dice May Be Key.” Newsweek, 2025 (citação direta de Michael Greshko sobre a Naibbe cipher).
  • “Mysterious Voynich manuscript may be a cipher, a new study suggests.” Live Science, 2025.
  • “Historically Plausible Cipher Recreates Statistical Signature of Voynich Manuscript.” Sci.News, 2025.
  • ScienceAlert. “Researcher Finds Evidence That The ‘World’s Most Mysterious Book’ Is an Elaborate Hoax” (sobre a hipótese de fraude de Gordon Rugg, Keele University, publicada em Cryptologia em 2016).

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