Não havia banco central, não havia governo, não havia sequer a intenção de criar um mercado. Havia apenas homens presos, uma cerca de arame farpado e caixas de mantimentos que chegavam de tempos em tempos pela Cruz Vermelha. Ainda assim, em poucas semanas, dentro dos campos de prisioneiros de guerra alemães da Segunda Guerra Mundial, nasceu algo que se parecia, ponto por ponto, com um mercado de preços: uma moeda própria, cotações que subiam e desciam, um quadro de ofertas que funcionava como bolsa de valores improvisada e até um pequeno colapso monetário.
Quem documentou esse fenômeno foi o próprio homem que o viveu. R. A. Radford, um soldado britânico capturado pelas forças alemãs no Norte da África em 1942, passou os anos seguintes como prisioneiro em diferentes campos, entre eles o Stalag VII-A, na Baviera. Ao ser libertado, formou-se em economia em Cambridge e, já em novembro de 1945, publicou na revista acadêmica Economica — periódico ligado à London School of Economics — um artigo que se tornaria uma referência incomum nos manuais de economia: “The Economic Organisation of a P.O.W. Camp” (“A Organização Econômica de um Campo de Prisioneiros de Guerra”), nas páginas 189 a 201 do volume 12, número 48 da publicação.
Este texto reconstrói, a partir do relato original de Radford e de fontes acadêmicas que o documentam, o que de fato aconteceu dentro daqueles campos — sem transformar o episódio em manifesto para qualquer corrente de pensamento econômico.
Um observador involuntário
Radford não escreveu como economista destacado para pesquisar um problema teórico. Ele escreveu como alguém que, tendo estudado economia antes da guerra, passou a notar padrões comerciais ao seu redor enquanto esperava a libertação. Segundo o verbete biográfico disponível na Wikipédia sobre Richard A. Radford, ele nasceu em Nottingham, na Inglaterra, em 1919, e morreu em 2006, nos Estados Unidos, depois de uma carreira de décadas no Fundo Monetário Internacional, onde chegou a diretor assistente do Departamento de Assuntos Fiscais.
O artigo de 1945 descreve sua passagem por mais de um tipo de campo: um campo de trânsito na Itália, campos permanentes na Alemanha e, em particular, o já citado Stalag VII-A, em Moosburg, que em determinado momento abrigou dezenas de milhares de prisioneiros de diferentes nacionalidades, além de outros campos menores — os chamados Oflags — com populações entre 1.200 e 2.500 homens. É esse cenário de confinamento total, isolado do sistema monetário do mundo exterior, que torna o relato de Radford peculiar: ele descreve, em tempo real, o que emerge quando pessoas com necessidades e gostos diferentes convivem em um espaço fechado, sem dinheiro oficial e sem qualquer estrutura comercial planejada por alguma autoridade.
Do escambo simples ao cigarro como moeda
Nos primeiros dias, segundo o relato, as trocas eram feitas por escambo direto: um prisioneiro trocava uma lata de carne por chocolate, outro trocava sabonete por café. O problema clássico do escambo logo apareceu — a dificuldade de encontrar alguém que quisesse exatamente o que você tinha e tivesse exatamente o que você queria. Com o aumento do volume de trocas, sobretudo depois da chegada de pacotes de socorro da Cruz Vermelha contendo itens como cigarros, chocolate, conservas e sabão, começaram a surgir, nas palavras do próprio artigo, “escalas aproximadas de valores de troca”.
O cigarro se destacou nesse processo por reunir características que o tornavam prático como referência de valor: era um item padronizado, divisível, desejado por uma parte relevante da população do campo — os fumantes — e, ao mesmo tempo, aceito até por quem não fumava, porque sabia que poderia trocá-lo depois por outra coisa. Em poucas semanas, o cigarro deixou de ser apenas um bem de consumo e passou a funcionar como unidade de conta e meio de troca de fato: os preços de outros produtos passaram a ser cotados em número de cigarros, do mesmo modo que hoje cotamos preços em reais.
Preços que subiam e desciam com a chegada dos pacotes
Se havia algo parecido com “política monetária” naquele ambiente, ela era ditada inteiramente pela logística externa da Cruz Vermelha e pelas rações distribuídas semanalmente aos prisioneiros. Radford relata que, quando grandes remessas de pacotes chegavam — em geral em ciclos trimestrais —, a quantidade de cigarros disponível no campo aumentava bruscamente, e os preços medidos em cigarros disparavam: era preciso mais cigarros para comprar a mesma lata de conservas, porque havia mais cigarros circulando e a demanda por outros bens não crescia na mesma proporção. À medida que os estoques se esgotavam nas semanas seguintes, antes da próxima remessa, ocorria o movimento inverso: os preços em cigarros caíam, porque cigarros ficavam escassos e cada um deles passava a “valer” mais em termos de outros produtos.
Esse padrão descrito por Radford é, em essência, uma ilustração simples do mecanismo de oferta e demanda operando sobre a própria moeda: quando a quantidade de “dinheiro” (cigarros) disponível varia de forma abrupta e a quantidade de bens reais não acompanha essa variação, os preços nominais oscilam na direção correspondente. O episódio interessa à história econômica exatamente por isolar esse mecanismo em um ambiente pequeno, fechado e bem documentado — algo raro de observar com tanta clareza em uma economia nacional real.
A miniatura da Lei de Gresham
Um dos trechos mais citados do artigo de Radford descreve um efeito curioso sobre a qualidade das próprias notas de cigarro em circulação. Havia dois tipos de cigarro no campo: os industrializados, prontos, vindos das fábricas, e os enrolados à mão a partir de fumo solto, de qualidade mais variável e muitas vezes inferior. Como cada cigarro recebido em pagamento era examinado antes de ser aceito, prisioneiros começaram a guardar os cigarros de melhor qualidade — de marcas mais valorizadas — para fumar, e a usar preferencialmente os cigarros de qualidade inferior para pagar suas trocas.
O resultado foi que a “moeda ruim” circulava mais do que a “moeda boa”, que tendia a sumir de circulação porque era retida por seu valor de uso como cigarro para fumar, e não gasta como instrumento de troca. Esse fenômeno reproduz, em miniatura, o princípio historicamente associado à chamada Lei de Gresham — segundo a qual, quando duas formas de moeda com valores de face equivalentes, mas qualidades intrínsecas distintas, circulam ao mesmo tempo, a de qualidade inferior tende a permanecer em circulação enquanto a de qualidade superior é retida. Vale registrar que se trata de uma analogia estrutural, e não de uma aplicação idêntica ao fenômeno observado historicamente entre moedas metálicas.
Um quadro de ofertas, um mercado futuro e uma moeda de papel que fracassou
O que talvez mais surpreenda no relato de Radford é o nível de sofisticação institucional que emergiu sem nenhum planejamento central. Segundo descreve o artigo — e conforme resumido por cópias acadêmicas do texto disponíveis, como a hospedada pela Universidade Carlos III de Madri e pela National Taiwan University —, surgiu nos campos um quadro de avisos conhecido informalmente como “Bolsa de Trocas”, no qual prisioneiros publicavam ofertas padronizadas: nome, número do alojamento, o que desejavam comprar e o que tinham para vender. Uma espécie de armazém sem fins lucrativos chegou a operar em alguns campos, comprando e revendendo mantimentos a preços fixos em cigarros.
Também surgiram práticas típicas de mercados financeiros mais desenvolvidos: negociações “a termo”, em que se combinava um preço para entrega futura de um produto, e arbitragem entre diferentes alojamentos do mesmo campo, com prisioneiros que verificavam os preços do quadro de ofertas várias vezes ao dia em busca de diferenças a explorar. O episódio mais dramático, contudo, foi a tentativa de alguns prisioneiros de criar uma moeda de papel própria — apelidada de “Bully Mark” — para lastrear as trocas. O experimento fracassou: a nova moeda de papel gerou um efeito deflacionário, tornando difícil vender mercadorias ao preço esperado, e o sistema voltou a se apoiar no cigarro como referência de valor.
Nota de honestidade editorial: o relato de Radford sobre o campo de prisioneiros é, há décadas, um dos episódios mais citados por uma linha específica do pensamento econômico — a escola liberal e, em particular, a tradição austríaca — como exemplo de que instituições de mercado (moeda, preços, crédito) podem surgir espontaneamente, sem desenho central, e como argumento a favor da superioridade de mercados livres em relação ao planejamento centralizado. Este artigo não pretende validar nem refutar essa leitura. O objetivo aqui foi estritamente reconstruir, com base na fonte primária de 1945 e em cópias acadêmicas do texto, o que Radford efetivamente observou e documentou dentro daqueles campos — um episódio de formação de preços sob escassez e diversidade de preferências, e nada além disso.
Fontes citadas neste artigo:
- Radford, R. A. “The Economic Organisation of a P.O.W. Camp”, Economica, New Series, Vol. 12, No. 48 (Nov., 1945), pp. 189-201 — cópia acadêmica (National Taiwan University)
- Radford, R. A. “The Economic Organisation of a P.O.W. Camp” — cópia acadêmica (Universidad Carlos III de Madrid)
- Richard A. Radford — verbete biográfico (Wikipédia)
- Economica — verbete sobre o periódico da London School of Economics (Wikipédia)