A Biblioteca de Alexandria não morreu num incêndio. Ela morreu de corte de verba.

Há uma cena que quase todo mundo já viu em algum documentário, livro didático ou postagem de rede social: chamas altíssimas engolindo centenas de milhares de rolos de papiro, enquanto uma multidão zomba do conhecimento humano sendo reduzido a cinzas. A cena tem um vilão — às vezes é Júlio César, às vezes é uma multidão religiosa do século IV, às vezes são conquistadores árabes do século VII. O detalhe mais marcante é sempre o mesmo: um evento único, dramático, que apaga séculos de sabedoria numa tarde.

O problema é que essa cena, na forma como é popularmente contada, não corresponde ao que a historiografia acadêmica hoje reconstrói a partir das fontes disponíveis. Não existe um consenso entre historiadores clássicos apontando um único culpado, nem um único incêndio decisivo. O que a pesquisa moderna descreve é bem menos cinematográfico e bem mais revelador: uma instituição que perdeu financiamento, sofreu saques em diferentes momentos, foi atingida por crises políticas ao longo de mais de quatro séculos e, ao que tudo indica, já estava em avançado estado de decadência muito antes do episódio geralmente citado como o “fim” — a destruição do templo do Serapeu em 391 d.C.

Este texto não pretende defender ou atacar nenhum grupo histórico. O objetivo é outro: mostrar como a cultura popular do século XX transformou um processo institucional lento — de corte orçamentário, guerra civil, negligência administrativa e degradação física de material orgânico — em uma narrativa de vilão único e evento único, muito mais fácil de contar do que de sustentar com evidência primária.

O tamanho do acervo já era um exagero antigo

Antes de discutir como a Biblioteca desapareceu, vale a pena perguntar algo mais básico: o quão grande ela realmente era. A cifra mais repetida popularmente — algo entre 400 mil e 700 mil rolos — vem de fontes antigas específicas: o escritor romano Aulo Gélio, do século II d.C., e o historiador cristão Orósio, do início do século V. Nenhum dos dois viveu no auge da instituição ptolomaica, e nenhum apresenta metodologia de contagem: são números repetidos de autor para autor, num gênero literário antigo que valorizava a hipérbole para engrandecer feitos culturais.

O papirólogo Roger S. Bagnall, professor na Columbia University e depois diretor do Institute for the Study of the Ancient World, da New York University, testou essas cifras de outra maneira. Em seu artigo “Alexandria: Library of Dreams”, publicado em 2002 nos Proceedings of the American Philosophical Society, Bagnall calculou quantos autores gregos conhecidos existiram desde o início do período helenístico e quantos rolos, em média, a obra de cada um ocuparia. Considerando cerca de 450 autores conhecidos e uma média de 50 rolos por autor, o resultado chega a pouco mais de 30 mil rolos para cobrir a totalidade da literatura grega então em circulação. Bagnall argumenta que as cifras antigas de centenas de milhares “não merecem crédito” e não se apoiam em nenhuma boa autoridade da Antiguidade, sendo prováveis exageros retóricos repetidos ao longo dos séculos. Sua conclusão é que o número real provavelmente ficava uma ordem de grandeza abaixo dos 400 mil a 700 mil citados pelas fontes tardias — ou seja, dezenas de milhares, não centenas de milhares, de rolos.

Esse detalhe importa porque boa parte do impacto emocional da narrativa popular depende da escala: quanto maior o número de rolos supostamente perdidos, mais dramática soa a perda repentina. Se o acervo real era uma fração do citado popularmente, o enredo de uma perda catastrófica instantânea perde parte do seu fundamento — e abre espaço para uma pergunta mais interessante: o que de fato aconteceu com ele, ao longo de quanto tempo?

Júlio César começou o processo, não o terminou

O primeiro episódio de destruição frequentemente citado tem data e contexto bem documentados: durante a guerra civil em Alexandria, em 48 a.C., as forças de Júlio César atearam fogo a navios no porto para impedir que caíssem em mãos inimigas. Fontes antigas como Plutarco, escrevendo décadas depois, relatam que o incêndio se espalhou e atingiu depósitos próximos ao porto — nas palavras que a tradição atribui a essa passagem, chegou a alcançar “a grande biblioteca”. Sêneca, citando o historiador romano Tito Lívio, fala em 40 mil rolos queimados nesse episódio, número bem mais modesto que os das gerações posteriores, e ainda assim de origem incerta.

O que os estudos mais recentes destacam é que essa passagem de Plutarco, junto com o relato de Cássio Dio sobre “depósitos de grãos e livros” incendiados perto do porto, provavelmente descreve a perda de armazéns, não da estrutura principal da Biblioteca ou do Museu, o instituto de pesquisa a que ela estava associada. Depois desse episódio, o Museu seguiu funcionando por muito tempo: autores como o geógrafo Estrabão, que visitou Alexandria décadas mais tarde, ainda descrevem uma instituição intelectual ativa na cidade — incompatível com a ideia de que o incêndio de César tenha sido o fim da Biblioteca. Na melhor leitura da evidência disponível, foi um golpe real, mas parcial, num acervo que continuou existindo, em alguma forma, por gerações depois.

A decadência silenciosa: cortes de verba e crise institucional

O período menos contado por qualquer versão dramática é também o mais bem documentado pelos historiadores: a lenta perda de prestígio e financiamento da Biblioteca sob os últimos reis ptolomaicos e, depois, sob o domínio romano. A cadeira de diretor da Biblioteca, que originalmente era ocupada por eruditos de renome sob os primeiros Ptolomeus, passou a ser tratada como um cargo de nomeação política em períodos posteriores — sinal de que a instituição perdia peso científico e ganhava peso simbólico.

O século III d.C. concentra vários desses golpes institucionais. Em 215 d.C., o imperador romano Caracala, irritado com a população de Alexandria, promoveu um massacre na cidade que teria incluído a suspensão de privilégios e financiamento a instituições acadêmicas locais. Em 272 d.C., durante a repressão imperial à revolta liderada por Zenóbia, as forças do imperador Aureliano destruíram boa parte do bairro do Bruquião, onde ficava historicamente o complexo da Biblioteca e do Museu. Há ainda relatos de dano adicional durante o cerco imperial de Diocleciano à cidade, no fim do mesmo século. Some-se a isso a deterioração física natural do papiro — material orgânico vulnerável a umidade, insetos e fungos, que exige recópia periódica para sobreviver — e o quadro que emerge é o de uma coleção que ia minguando por negligência havia gerações, muito antes de qualquer episódio associado a disputas religiosas.

Por isso, historiadores que estudam esse período falam de um “fogo lento” para descrever o desaparecimento da Biblioteca: não uma chama súbita, mas um processo de décadas em que cortes orçamentários, saques pontuais, crises políticas e desgaste material foram, juntos, apagando o acervo.

O Serapeu em 391 d.C.: um templo, não necessariamente uma biblioteca relevante

O evento mais citado em disputas ideológicas é a destruição do templo de Serápis, o Serapeu de Alexandria, em 391 d.C., num contexto de conflitos entre comunidades religiosas na cidade e de éditos imperiais que restringiam cultos tradicionais. É verdade que o Serapeu, em algum momento de sua história, abrigou uma coleção de rolos descrita como uma espécie de “biblioteca-filha” vinculada à tradição da grande Biblioteca ptolomaica.

A pergunta historiograficamente relevante é: essa coleção ainda existia, em escala significativa, no momento da destruição do templo? As fontes antigas que descrevem o episódio de 391 — os historiadores eclesiásticos Rufino de Aquileia, Sócrates Escolástico, Sozomeno e Teodoreto, além do historiador pagão Eunápio de Sardes — concentram-se quase inteiramente na destruição de estátuas, na demolição do edifício e nos conflitos entre grupos religiosos da cidade. Nenhuma delas menciona a destruição de uma biblioteca no episódio.

O caso de Eunápio é especialmente informativo para quem investiga a confiabilidade das fontes: ele era um historiador pagão, crítico das políticas religiosas de sua época, e teria todo interesse retórico em registrar a perda de um patrimônio cultural pagão, caso ela tivesse ocorrido ali. Ainda assim, seu relato sobre a destruição do Serapeu não faz nenhuma menção a um acervo de livros sendo destruído. Esse silêncio, vindo justamente de uma fonte com motivo para registrar esse tipo de perda, é um dos principais argumentos usados por historiadores contemporâneos para sustentar que a coleção do Serapeu já havia se tornado irrelevante, ou mesmo deixado de existir, bem antes de 391.

Há ainda um dado cronológico adicional: o historiador romano Amiano Marcelino, que visitou o Egito e escreveu sobre Alexandria por volta de 378 d.C. — treze anos antes da destruição do templo —, descreve as bibliotecas associadas ao complexo do Serapeu no passado, como algo que existira, não como uma instituição em funcionamento naquele momento. Esse detalhe reforça a hipótese de que, quando o templo foi demolido em 391, o que ali se perdeu foi principalmente um espaço religioso e simbólico — não um acervo bibliográfico relevante para a história da erudição alexandrina.

Como uma história complexa virou um mito de vilão único

Se a evidência disponível aponta para um processo multicausal e lento, por que a versão popular é tão diferente? Parte da resposta está na forma como certos autores modernos reformularam o tema para públicos amplos. O historiador britânico Edward Gibbon, em sua obra “Declínio e Queda do Império Romano”, publicada entre 1776 e 1788, já apresentava a perda da Biblioteca em tom de lamento retórico, associando-a a episódios de intolerância — um estilo literário típico do Iluminismo, que usava a Antiguidade como palco para debates do próprio século XVIII sobre religião e razão.

Quase dois séculos depois, a série de televisão “Cosmos”, apresentada pelo astrônomo Carl Sagan em 1980, deu a essa narrativa um alcance de audiência sem precedentes. No episódio 11 da série, “The Persistence of Memory”, dedicado em parte à matemática Hipátia de Alexandria, Sagan descreve a destruição da Biblioteca de forma emocionalmente carregada, associando-a ao fim de uma era de livre investigação científica na Antiguidade. A força pedagógica e o alcance cultural de “Cosmos” — um dos programas de divulgação científica mais assistidos da história da televisão — ajudaram a fixar, para gerações de espectadores, a imagem de um evento único e catastrófico como sinônimo da perda do conhecimento antigo, mesmo sem o programa ser uma obra de pesquisa historiográfica primária sobre o tema.

Pesquisadores contemporâneos de história antiga — entre eles o próprio Bagnall e outros classicistas que revisaram criticamente as fontes sobre o fim da Biblioteca — apontam que essa simplificação não apenas comprime um processo de mais de quatro séculos em um único evento, como também tende a atribuir a perda a um único grupo, dependendo de quem conta a história: romanos, cristãos ou muçulmanos já foram, em diferentes momentos e por diferentes narradores, apontados como o “culpado” exclusivo. Nenhuma dessas versões resiste bem ao exame das fontes primárias, porque nenhuma dá conta da cronologia completa: guerra civil no século I a.C., negligência administrativa ao longo de gerações, crise político-militar no século III d.C., e um evento do século IV cuja relação direta com um acervo já então praticamente esvaziado é, na melhor das hipóteses, indireta.

O que resta quando se tira o drama

Entender a Biblioteca de Alexandria como um processo, e não como um evento, não torna a história menos interessante — torna-a mais reveladora sobre como o conhecimento realmente se perde ao longo do tempo. Instituições culturais raramente desaparecem por um único golpe espetacular. Elas desaparecem quando deixam de receber recursos, quando seus quadros técnicos são dispersos, quando a manutenção física do acervo é negligenciada e quando crises políticas sucessivas tornam sua reconstrução cada vez menos prioritária. A Biblioteca de Alexandria parece ter sido, sob esse ponto de vista, menos vítima de um inimigo específico e mais vítima do mesmo tipo de erosão institucional que ameaça qualquer grande acervo de conhecimento quando ele para de ser considerado prioridade por quem detém o poder de financiá-lo.

Essa é também a razão pela qual a reconstrução historiográfica cuidadosa da questão importa: não para retirar responsabilidade de nenhum episódio específico de violência ou intolerância documentado na Antiguidade, mas para não transformar uma pergunta histórica legítima e complexa em munição retórica para debates contemporâneos que os próprios historiadores clássicos, ao examinar as fontes primárias com rigor, já não sustentam.


Fontes citadas neste artigo:

  • Roger S. Bagnall, “Alexandria: Library of Dreams”, Proceedings of the American Philosophical Society, vol. 146, n. 4 (dezembro de 2002), Columbia University / posteriormente Institute for the Study of the Ancient World (NYU).
  • Tim O’Neill, “The Great Myths 5: The Destruction of the Great Library of Alexandria”, History for Atheists, julho de 2017.
  • Tim O’Neill, “The Great Library of Alexandria – Part One”, History for Atheists, abril de 2021.
  • Candida Moss (professora na University of Birmingham), “What Really Destroyed the Library of Alexandria?”, National Geographic.
  • Arienne King, “Did Julius Caesar Burn Down the Library of Alexandria?”, Bad Ancient (site de checagem histórica fundado por Josho Brouwers), 16 de maio de 2025.
  • Peter Gainsford (classicista, autor de “Early Greek Hexameter Poetry”, Cambridge University Press, 2015), “Cosmos #3. Hypatia and the library”, Kiwi Hellenist, dezembro de 2018.
  • Edward Gibbon, The History of the Decline and Fall of the Roman Empire, volumes publicados entre 1776 e 1788 (referência de contexto histórico sobre a popularização literária do tema no século XVIII).
  • Carl Sagan, Cosmos: A Personal Voyage, episódio 11 (“The Persistence of Memory”), série de televisão, 1980 (referência de contexto sobre a popularização televisiva do tema no século XX).

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