No dia 4 de agosto de 2026, às 20h (horário de Brasília: 17h), um bloco de gelo do tamanho da ilha de Manhattan se desprendeu da geleira Petermann, no noroeste da Groenlândia. A separação foi flagrada por satélites da missão Sentinel-1, da Agência Espacial Europeia, e identificada por Adam Garbo, doutorando em glaciologia da Universidade de Ottawa, que já vinha acompanhando rachaduras na geleira havia anos.
Os números por trás do gigante de gelo
A “ilha de gelo” recém-formada tem 76,4 km² de área — para efeito de comparação, a ilha de Manhattan, em Nova York, tem cerca de 59 km². A espessura do bloco chega a 150 metros, o equivalente a um prédio de mais de 40 andares submerso na água.
O rompimento não foi uma surpresa completa: cientistas já vinham monitorando fissuras na língua de gelo flutuante da Petermann havia anos, e sinais de deterioração já haviam sido notados em imagens de satélite do dia anterior, 3 de agosto.
Por que isso importa: mais dois blocos estão a caminho
O mais preocupante para os pesquisadores não é o bloco que já se soltou, mas o que vem depois. Segundo a equipe de pesquisadores das universidades de Ottawa, Stirling, Lancaster e Leeds, além da Environment and Climate Change Canada, outras duas seções da língua de gelo devem se desprender em breve, à medida que rachaduras que vêm se desenvolvendo há anos continuam a cortar o gelo.
Esses dois blocos futuros são ainda maiores: um de 94 km² e outro de 84 km². Somados ao pedaço que já se soltou, representariam uma redução de aproximadamente 22% em toda a língua de gelo flutuante da geleira Petermann.
O que é uma “língua de gelo” e por que ela importa
Diferente de uma geleira comum que termina em terra firme, a Petermann tem uma extensão de gelo que flutua sobre o oceano, presa à parte continental da geleira como uma prancha apoiada na água. Essa língua de gelo funciona como uma espécie de rolha: ela desacelera o fluxo do gelo terrestre atrás dela em direção ao mar. Quando pedaços dessa língua se quebram, a “rolha” fica mais curta e mais fina, e o gelo que está atrás pode acelerar seu deslocamento rumo ao oceano — um processo que os glaciologistas chamam de perda de “contraforte” (do inglês buttressing).
É esse mecanismo, e não o desprendimento do bloco isolado em si, que preocupa os cientistas no médio e longo prazo: menos gelo sustentando a geleira por trás significa potencialmente mais gelo terrestre escorrendo para o oceano nos próximos anos.
Um padrão observado em outras geleiras da Groenlândia e da Antártida
O caso da Petermann não é um evento isolado no noticiário científico recente. Na mesma semana, pesquisadores da Universidade Nacional Australiana publicaram, na revista científica Geophysical Research Letters, a descoberta de mais de 360 eventos sísmicos glaciais até então não catalogados na Antártida — 245 deles concentrados perto da borda marinha da geleira de Thwaites, apelidada de “Geleira do Apocalipse” por seu potencial de elevar o nível do mar em até 3 metros globalmente, caso venha a colapsar por completo.
Os dois casos, embora em polos opostos do planeta, ilustram uma mesma linha de pesquisa em expansão: o monitoramento cada vez mais fino — via satélite, no caso da Groenlândia, e via sismômetros locais, no caso da Antártida — de processos de fratura e desprendimento de gelo que, até poucos anos atrás, eram difíceis de detectar com esse nível de detalhe.
Fontes
ScienceDaily, “A Manhattan-sized ice island just broke free from Greenland” (23 de agosto de 2026) e “Manhattan-sized ice island breaks off Greenland’s Petermann Glacier” (26 de agosto de 2026); pesquisa das universidades de Ottawa, Stirling, Lancaster e Leeds, e da Environment and Climate Change Canada, com dados dos satélites Sentinel-1 da Agência Espacial Europeia.
