A Antártida ganhou 695 bilhões de toneladas de gelo. Isso significa que o degelo parou?

À primeira vista, a notícia soa como uma contradição direta de tudo que se sabe sobre o aquecimento do planeta: entre 2021 e 2023, a Antártida Oriental ganhou cerca de 695 bilhões de toneladas de gelo — o maior ganho de massa já registrado pelas missões de satélite GRACE, que monitoram variações de gravidade para medir com precisão o quanto de gelo cada região do planeta tem. Mas a explicação por trás desse ganho, publicada na revista *Nature* em agosto de 2026, revela algo mais interessante — e mais preocupante — do que uma simples reviravolta climática.

O estudo, liderado por Yunhe Wang, do Instituto de Oceanologia da Academia Chinesa de Ciências, rastreou a origem desse gelo extra a um fenômeno batizado de teleconexão “piscina quente tropical–manto de gelo da Antártida Oriental”. A cadeia de eventos começa a milhares de quilômetros de distância, no oceano tropical onde o Pacífico ocidental encontra o Índico oriental — uma das regiões mais quentes de todo o oceano global.

Como um oceano tropical consegue nevar sobre a Antártida

O mecanismo funciona assim: o aquecimento sustentado dessa “piscina quente” tropical gera uma onda atmosférica de grande escala (um chamado trem de ondas de Rossby) que se propaga até as altas latitudes do hemisfério sul. Ao chegar perto da Antártida, essa onda ajuda a montar um padrão de pressão em dipolo — baixa pressão ao sul da Austrália, alta pressão ao longo da costa da Antártida Oriental. Esse desequilíbrio de pressão intensifica os chamados “rios atmosféricos”, faixas estreitas na atmosfera que transportam enormes quantidades de umidade — nesse caso, puxando vapor de água das latitudes médias do Oceano Índico diretamente para cima da região de Queen Mary Land e Wilkes Land, na Antártida Oriental, onde ele cai como neve pesada.

Ou seja: o gelo extra não veio de um resfriamento local — veio de mais umidade sendo despejada sobre uma região que já estava fria o suficiente para reter neve. É, na prática, um evento de precipitação extrema, não uma reversão do degelo.

Por que isso não contradiz o aquecimento global — e por que ainda importa

O próprio estudo é explícito sobre o ponto mais importante: esse ganho é temporário e não reverte a tendência de perda de massa de longo prazo do manto de gelo antártico como um todo. Nas últimas duas décadas, a Antártida como um todo perdeu gelo a uma taxa média de aproximadamente 140,5 bilhões de toneladas por ano — a Antártida Ocidental continua perdendo massa de forma consistente, e as geleiras de saída mais vulneráveis da própria Antártida Oriental seguem ameaçadas pelo aquecimento do oceano, que derrete as plataformas de gelo por baixo.

Os pesquisadores atribuíram apenas 9% do aumento de neve observado ao aquecimento global de origem humana — a maior parte do evento é variabilidade climática natural, do tipo que pode, em teoria, se repetir ou reverter em poucos anos. O motivo pelo qual esse achado importa não é consolar quem espera que o degelo tenha parado, mas o oposto: ele mostra que o comportamento do manto de gelo antártico é mais sensível a eventos climáticos distantes e de curto prazo do que os modelos anteriores capturavam — o que tanto complica quanto refina a capacidade dos cientistas de prever, ano a ano, como esse gigante gelado vai se comportar diante de um planeta cada vez mais quente.

Fontes: ScienceDaily (06/09/2026), citando o estudo original publicado na revista *Nature*, volume 656, edição 8129, página 897 (19/08/2026), Instituto de Oceanologia da Academia Chinesa de Ciências.

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