Grande Zimbábue: a cidade de pedra que a ciência colonial se recusou, por um século, a atribuir a africanos

No planalto do atual Zimbábue, entre os rios Zambeze e Limpopo, existe uma muralha de granito com quase 11 metros de altura, erguida sem uma pitada de argamassa, encaixando pedra sobre pedra com uma precisão que resistiu a sete séculos de chuva, sol e guerra. É o maior conjunto de ruínas pré-coloniais de toda a África Subsaariana. E durante mais de cem anos, a pergunta “quem construiu isso?” recebeu, da boca de exploradores, jornalistas e até de arqueólogos com credenciais acadêmicas, praticamente qualquer resposta — fenícios, egípcios, árabes, a lendária rainha de Sabá — exceto a única resposta que a evidência material sempre sustentou: os ancestrais do povo shona, os mesmos africanos que a colonização branca da Rodésia insistia serem incapazes de tal feito.

Essa não é uma nota de rodapé curiosa na história da arqueologia africana. É um caso didático de como o racismo científico do fim do século XIX e início do XX torceu a leitura de evidências arqueológicas concretas — cerâmica, estratigrafia, datação por radiocarbono — para caber numa conclusão política definida de antemão. E é também a história de como esse mito foi desmontado, pesquisa por pesquisa, por cientistas que insistiram em deixar a evidência falar, alguns deles pagando um preço profissional alto por isso.

Uma cidade de pedra sem paralelo na região

O sítio conhecido como Great Zimbabwe ocupa cerca de 722 hectares no planalto do Zimbábue moderno e se divide em três conjuntos: o Complexo da Colina (Hill Complex), acrópole fortificada que serviu de residência real; o Grande Recinto (Great Enclosure), estrutura mais impressionante, muralha elíptica que chega a 11 metros de altura e se estende por cerca de 250 metros; e o Complexo do Vale (Valley Complex), de habitações residenciais mais tardias. A técnica construtiva impressiona até hoje: alvenaria em pedra seca (dry stone walling), sem qualquer argamassa ou cimento unindo os blocos de granito. Os construtores exploravam o comportamento natural da rocha local, que se fragmenta em placas relativamente regulares quando exposta ao calor e ao frio, e as empilhavam em fiadas cuidadosamente niveladas — técnica que foi se sofisticando ao longo de gerações.

A datação arqueológica hoje aceita situa a ocupação principal entre os séculos XI e XV, com o Grande Recinto erguido nos séculos XIII e XIV e o apogeu populacional e comercial por volta do século XV, antes de um declínio ligado a esgotamento de recursos e mudanças nas rotas de comércio. Estimativas de população variam — de 18 mil habitantes no pico, em cálculos mais antigos, a um número mais conservador, abaixo de 10 mil, em revisões recentes —, mas mesmo pelo cálculo mais modesto trata-se de um centro urbano de escala considerável para a África medieval, com evidências robustas de comércio de longa distância: fragmentos de cerâmica chinesa, contas de vidro do Oriente Médio e objetos ligados a redes mercantis que conectavam o interior do platô a portos da costa do Índico. Não havia, portanto, mistério técnico ou lacuna material que justificasse procurar construtores fora do continente africano. O que houve foi um problema político.

O explorador, a Bíblia e a rainha de Sabá

O primeiro europeu a descrever as ruínas em detalhe para um público ocidental foi o geólogo e explorador alemão Karl Mauch, que chegou ao sítio em 1871. Mauch ficou genuinamente impressionado com a construção — e recusou de imediato a possibilidade de que a população local a tivesse erguido. Especulou, em vez disso, que estava diante de vestígios bíblicos: o palácio da rainha de Sabá, ou a lendária terra de Ofir, de onde o rei Salomão teria extraído ouro. Chegou a comparar um fragmento de madeira encontrado no sítio ao cedro do Líbano das construções bíblicas — inferência sem base rigorosa, movida mais pelo desejo de uma explicação “nobre o suficiente” do que pela evidência em si.

A hipótese bíblica pegou. Décadas depois, o arqueólogo britânico James Theodore Bent visitou o sítio entre 1891 e 1893, sob patrocínio ligado a interesses de Cecil Rhodes, e publicou um relato influente atribuindo a construção a fenícios ou a povos semitas de origem arábica — uma “raça” estrangeira que teria comandado mão de obra africana subordinada, hipótese apoiada em semelhanças superficiais entre esculturas de aves de esteatita do sítio e iconografia do Mediterrâneo antigo. Em 1902, sob a recém-criada Ordenança de Proteção de Monumentos Antigos da Rodésia do Sul, o cargo de curador foi entregue a Richard Nicklin Hall, jornalista sem formação arqueológica convencido de que o sítio escondia vestígios da “terra bíblica de Havilah” do Livro do Gênesis. Para prová-lo, escavou o local de forma agressiva por dois anos, removendo camadas inteiras de depósito que classificava genericamente como “ocupação africana” recente e sem valor — destruindo, no processo, exatamente a estratigrafia que poderia ter datado a construção com precisão. Publicou seus resultados em 1905 defendendo duas ocupações semíticas antigas separadas por um longo abandono anterior à chegada dos africanos. O estrago que causou ao registro arqueológico do sítio é considerado irreparável até hoje.

Foi nesse ambiente — de exploradores amadores, teorias bíblicas e arqueologia financiada por interesses coloniais — que se consolidou, na virada do século XX, a ideia pública de que o Grande Zimbábue jamais poderia ter sido obra de “nativos africanos”.

A ciência entra em cena — e aponta na direção “errada”

A virada começou, ironicamente, por iniciativa da própria comunidade científica britânica, incomodada com o amadorismo das escavações anteriores. Em 1905, a British Association for the Advancement of Science comissionou o egiptólogo David Randall-MacIver para investigar o sítio com métodos mais rigorosos. Randall-MacIver não encontrou nenhum objeto anterior aos séculos XIV-XV e concluiu, no livro que publicou em 1906, “Mediaeval Rhodesia”, que não havia absolutamente nada no sítio que pudesse ser demonstrado como de estilo europeu ou oriental. Sua conclusão foi taxativa: o caráter da cultura material era inequivocamente africano, e a datação, medieval — não antiga, não bíblica, não fenícia.

A resposta política a essa conclusão foi hostilidade. A ideia de que uma sociedade africana pré-colonial tivesse erguido, por conta própria, uma das maiores estruturas de pedra do continente contrariava frontalmente a ideologia que sustentava o próprio projeto colonial branco na região — a noção de que os povos africanos careciam da capacidade organizacional e técnica necessária para uma obra daquela envergadura, e que, portanto, a presença europeia trazia “civilização” a um território sem história própria digna de nota.

A confirmação definitiva viria de outra pesquisadora britânica, Gertrude Caton-Thompson, que escavou o sítio em 1929 com métodos ainda mais cuidadosos, abrindo trincheiras em áreas que escavações anteriores não haviam tocado. Em seu livro “The Zimbabwe Culture”, de 1931, foi ainda mais enfática que Randall-MacIver: examinando toda a evidência disponível, reunida de todas as fontes possíveis, não conseguiu produzir um único item que contrariasse a hipótese de origem bantu. Rejeitou explicitamente a ideia, ainda defendida por setores da opinião colonial, de que trabalhadores africanos teriam apenas executado ordens sob a direção de alguma “raça estrangeira superior”.

Duas investigações científicas independentes, conduzidas por pesquisadores britânicos sem vínculo ideológico com a tese africana, chegaram à mesma conclusão com quase um quarto de século de intervalo. Ainda assim, a narrativa pública e oficial na Rodésia colonial branca não mudou de forma significativa por décadas.

Peter Garlake e o preço de dizer a verdade sob censura de Estado

O capítulo mais dramático dessa história tem nome e data: Peter Garlake, arqueólogo nascido em 1934 na então Rodésia do Sul, que assumiu em 1964 o cargo de Inspetor de Monumentos do território — autoridade oficial responsável pela conservação e pela interpretação pública de sítios como o Grande Zimbábue. Ao longo dos anos 1960, conduziu pesquisa rigorosa e chegou à mesma conclusão que Randall-MacIver e Caton-Thompson já haviam estabelecido décadas antes: o sítio era produto de dois ou três séculos de desenvolvimento de uma técnica construtiva genuinamente africana, obra dos ancestrais do povo shona — conclusões que exporia de forma sistemática em “Great Zimbabwe”, publicado em 1973 pela Thames & Hudson e que se tornaria referência definitiva sobre o tema.

O problema é que, àquela altura, o governo da Rodésia — sob o regime de minoria branca do primeiro-ministro Ian Smith, que unilateralmente declarara independência do Reino Unido em 1965 justamente para preservar o domínio branco — tratava a origem africana do Grande Zimbábue como matéria de segurança ideológica, não de fato histórico. Todo material institucional sobre o sítio era obrigado, por diretriz governamental, a apresentar explicações alternativas — construção portuguesa, fenícia, ligada à rainha de Sabá — em pé de igualdade com a conclusão arqueológica, como hipóteses igualmente válidas.

Garlake se recusou a seguir essa exigência de “equilíbrio” fabricado entre uma conclusão científica estabelecida e especulações sem lastro. O resultado foi sua remoção do cargo em 1970. Deixou o país, foi pesquisador sênior na Universidade de Ifé, na Nigéria, entre 1971 e 1973 — período em que finalizou o livro —, depois lecionou antropologia na University College London entre 1976 e 1981, só retornando ao Zimbábue, já independente, para ensinar história na universidade do país recém-livre do domínio branco. Sua trajetória ilustra o mecanismo do caso: não faltava evidência arqueológica havia setenta anos quando foi demitido — faltava vontade política de aceitá-la, e sobrava disposição institucional para punir quem insistisse em divulgá-la sem as devidas “ressalvas” ideológicas.

O consenso científico e o reconhecimento internacional

Depois de Garlake, a datação por radiocarbono aplicada de forma sistemática — trabalho que pesquisadores como Keith Robinson ajudaram a consolidar a partir de amostras de postes de madeira do sítio — eliminou qualquer margem remanescente de dúvida cronológica, situando a ocupação entre aproximadamente os séculos IX e XV, com pico de desenvolvimento arquitetônico entre os séculos XIII e XV. A partir dos anos 1950, e de forma ainda mais consolidada depois dos anos 1970, formou-se entre arqueólogos um consenso que persiste até hoje sem contestação acadêmica séria: o Grande Zimbábue é obra dos ancestrais dos shona, resultado de um processo endógeno de desenvolvimento urbano, arquitetônico e comercial dentro do contexto mais amplo dos reinos do planalto do Zimbábue medieval. Pesquisadores contemporâneos como Thomas Huffman e Innocent Pikirayi — este último professor na Universidade de Pretória e uma das maiores autoridades vivas sobre o sítio — deram sequência a essa linha de pesquisa, refinando a cronologia e mapeando as redes de comércio que ligavam o Grande Zimbábue à costa do Índico, além de situar o sítio dentro de uma tradição mais ampla de construção em pedra que se estende por outros sítios da região, como Khami e Naletale.

Em 1980, ano da independência, o novo país adotou o nome do sítio para se autodenominar — gesto de reapropriação simbólica direta contra um século de negação. Em 1986, a Unesco inscreveu o Grande Zimbábue como Patrimônio Mundial, descrevendo-o oficialmente como testemunho único da civilização bantu dos shona entre os séculos XI e XV — a mesma conclusão que Randall-MacIver alcançara oitenta anos antes e que custara o cargo a Garlake pouco mais de uma década antes daquele reconhecimento internacional.

Como observa o historiador brasileiro José Henrique Rollo Gonçalves, em artigo publicado na revista Diálogos, do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá, em 2004, o episódio funciona como estudo de caso de como pressupostos etnocêntricos sobre uma suposta incapacidade tecnológica e organizacional dos povos africanos distorceram sistematicamente a interpretação de evidências arqueológicas concretas ao longo de gerações — mesmo quando essas evidências, examinadas com método, sempre apontaram numa única direção.

O que esse caso ensina sobre ciência e ideologia

O que torna o caso do Grande Zimbábue valioso não é apenas o desfecho — a autoria africana é hoje fato estabelecido e sem contestação séria na arqueologia internacional —, mas o mecanismo pelo qual o erro persistiu apesar da evidência disponível. Não houve, entre 1906 e 1970, ausência de dados capazes de resolver a questão: Randall-MacIver já fechara o caso cientificamente em 1906, e Caton-Thompson o reafirmara, com ainda mais rigor, em 1929. O que impediu que essas conclusões virassem consenso público por mais sessenta anos foi um interesse ideológico concreto — a legitimação do domínio colonial branco na Rodésia —, capaz de mobilizar diretrizes editoriais de Estado e a demissão de um funcionário público para manter viva uma dúvida que a ciência já havia dissolvido. Evidência correta, mostra o caso, não se traduz automaticamente em consenso quando existe poder político disposto a bancar o contrário — foi preciso mais de um século, e a coragem de pesquisadores como Randall-MacIver, Caton-Thompson e, sobretudo, Garlake, que pagou com o emprego e o exílio, para que a pedra empilhada sem argamassa nas colinas do Zimbábue fosse devolvida a seus verdadeiros construtores.


Fontes citadas neste artigo:

  • GONÇALVES, José Henrique Rollo. “Quem construiu o Grande Zimbábue? Em torno do mito da incapacidade civilizadora dos povos africanos”. Diálogos, DHI/UEM, v. 8, n. 1, 2004, p. 79-106.
  • GARLAKE, Peter S. Great Zimbabwe. Londres: Thames & Hudson, 1973.
  • CATON-THOMPSON, Gertrude. The Zimbabwe Culture: Ruins and Reactions. Oxford: Clarendon Press, 1931.
  • RANDALL-MACIVER, David. Mediaeval Rhodesia. Londres: Macmillan, 1906.
  • “Peter Garlake (1934–2011), Great Zimbabwe and the politics of the past in Zimbabwe”, Azania: Archaeological Research in Africa, Taylor & Francis, 2012.
  • Wikipedia (en). “Peter Garlake” — verbete biográfico com dados de carreira e datas.
  • Wikipedia (en). “Great Zimbabwe” — dados arquitetônicos, cronológicos e historiográficos do sítio.
  • UNESCO World Heritage Centre. “Great Zimbabwe National Monument” — ficha oficial de inscrição como Patrimônio Mundial (1986).
  • World History Encyclopedia. “The Impact of Prejudice on the History of Great Zimbabwe”.
  • The Zimbabwean. “Dr Peter Garlake: Archaeologist who ended the myth that whites built Great Zimbabwe” (2012).
  • Rhodesian Study Circle. “1902 – Great Zimbabwe Excavation” — sobre a escavação de Richard Nicklin Hall.
  • Universidade de Pretória — perfil acadêmico do professor Innocent Pikirayi, pesquisador contemporâneo do sítio.

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