Em novembro de 1910, seis homens embarcaram um a um em um vagão de trem particular em uma estação de Nova Jersey, evitando serem vistos juntos. Durante a viagem, combinaram usar apenas os primeiros nomes entre si — Nelson, Harry, Frank, Paul, Piatt e Arthur — para que os funcionários do trem não descobrissem quem eram. O destino era Jekyll Island, uma ilha particular na costa da Geórgia, então point de descanso de algumas das famílias mais ricas dos Estados Unidos. A desculpa oficial para a viagem era uma caçada de patos.
O que de fato aconteceu naqueles dias na ilha foi a redação do esqueleto técnico de uma reforma que, três anos depois, se tornaria o Federal Reserve Act — a lei que criou o banco central dos Estados Unidos. A história é real, está documentada por historiadores e pelo próprio Federal Reserve, e não precisa de nenhum adjetivo emprestado para ser notável: um senador dos Estados Unidos e um pequeno grupo de banqueiros de Wall Street se reuniram em sigilo deliberado, sob nomes falsos, para desenhar em particular uma proposta que definiria o sistema monetário do país.
Este texto reconstrói o episódio a partir de fontes históricas oficiais — o próprio escritório histórico do Federal Reserve, a Library of Congress e o Federal Reserve Bank de Richmond —, não das versões que circulam sobre o tema em livros e blogs de teoria da conspiração. O objetivo aqui é simples: contar o que aconteceu, com quem, por quê e com que consequência legal — nada mais, nada menos.
Um sistema bancário sem freios
Para entender por que esse encontro aconteceu, é preciso voltar a 1907. Naquele ano, os Estados Unidos foram atingidos por um pânico financeiro severo: uma tentativa fracassada de manipular ações de uma mineradora de cobre desencadeou uma corrida bancária que quase derrubou o sistema financeiro nova-iorquino. Sem um banco central, foi o banqueiro J.P. Morgan quem, pessoalmente, organizou um socorro privado para conter o colapso — reunindo outros banqueiros e comprometendo capital próprio para sustentar instituições em risco.
O episódio expôs uma fragilidade que incomodava banqueiros e legisladores havia anos: os Estados Unidos eram, entre as grandes potências econômicas da época, um caso isolado sem um banco central em funcionamento e sem mecanismo formal de última instância para estabilizar o sistema em crises de liquidez agudas. Em resposta, o Congresso aprovou em 1908 o Aldrich-Vreeland Act, que criou a National Monetary Commission — uma comissão encarregada de estudar o sistema bancário de outros países e propor uma reforma para os Estados Unidos. Ela foi presidida pelo senador republicano Nelson Aldrich, presidente da Comissão de Finanças do Senado e uma das figuras mais influentes do Partido Republicano na época.
Foi essa comissão, e a busca de Aldrich por uma proposta tecnicamente sólida antes de levá-la ao Congresso, que desembocou no encontro de Jekyll Island.
Uma “caçada de patos” que não tinha nada de caçada
Aldrich convocou o encontro reunindo, além de si mesmo, cinco convidados: A. Piatt Andrew, economista que na época já ocupava um cargo de assistente do secretário do Tesouro dos Estados Unidos; Henry Davison, sócio sênior da J.P. Morgan & Co.; Frank Vanderlip, presidente do National City Bank (hoje parte do Citigroup) e ex-funcionário do Tesouro; Paul Warburg, sócio da casa de investimentos Kuhn, Loeb & Co.; e Arthur Shelton, secretário particular do próprio Aldrich.
Segundo o Federal Reserve History, escritório histórico oficial do Federal Reserve System, Aldrich foi cuidadoso ao organizar a logística exatamente para evitar que o grupo fosse visto reunido: os convidados deveriam embarcar separadamente, em horários diferentes, em um vagão particular estacionado em uma estação de trem de Nova Jersey. A cobertura combinada para quem perguntasse era uma expedição de caça a patos.
O motivo do sigilo não era misterioso nem escondido pelos próprios participantes: Aldrich temia que a associação pública e explícita entre a proposta de reforma bancária e um grupo de banqueiros de Wall Street — incluindo o nome J.P. Morgan — comprometesse a viabilidade política do projeto no Congresso. Décadas depois, Vanderlip relatou em suas memórias o quanto o grupo levou o disfarce a sério: segundo ele, ele e Davison chegaram a abandonar os próprios prenomes, adotando os apelidos “Orville” e “Wilbur” — uma referência irônica aos irmãos Wright, sob a lógica de que “estavam sempre certos” (right, em inglês). O grupo todo, que se autodenominou “First Name Club”, evitou sobrenomes durante toda a viagem para que a tripulação do trem não identificasse quem estava a bordo.
Seis homens, dez dias, um plano
De acordo com o Federal Reserve History, o grupo permaneceu reunido em Jekyll Island entre 20 e 30 de novembro de 1910, isolado na sede do exclusivo Jekyll Island Club, sem contato com a imprensa ou com o restante do mundo financeiro. O trabalho ali era técnico: redigir uma proposta detalhada de reforma do sistema bancário e monetário americano, aproveitando o que os membros da comissão de Aldrich haviam estudado sobre os bancos centrais europeus, sobretudo o Reichsbank alemão.
O resultado ficou conhecido como Aldrich Plan. A proposta previa a criação de uma instituição chamada National Reserve Association — um banco central único, com cerca de quinze filiais regionais espalhadas pelo país, responsável por administrar reservas bancárias, emitir moeda, operar redesconto de títulos entre bancos e centralizar a compensação de cheques entre instituições financeiras. Era, em essência, uma tentativa de importar para os Estados Unidos mecanismos já testados em bancos centrais europeus — sobretudo o modelo alemão, que Paul Warburg, nascido na Alemanha e sócio de um banco de investimento com atuação internacional, conhecia de perto. O plano seria formalmente apresentado ao Congresso em janeiro de 1911, assinado pela National Monetary Commission sob a liderança de Aldrich.
De projeto rejeitado a lei federal
O Aldrich Plan não virou lei como foi escrito. Ele chegou ao Congresso em um momento politicamente desfavorável: nas eleições de 1910 e 1912, os democratas ganharam força, e Woodrow Wilson venceu a corrida presidencial de 1912 com o Partido Democrata controlando também o Congresso. Os democratas rejeitaram o Aldrich Plan por considerá-lo centralizador demais e excessivamente controlado por interesses privados de banqueiros — sem supervisão pública suficiente sobre a nova instituição.
Isso não significou o fim da ideia, mas sua reformulação política. Legisladores democratas, com destaque para o deputado Carter Glass, da Virgínia, e o senador Robert Owen, de Oklahoma, elaboraram uma nova proposta que preservava boa parte da arquitetura técnica pensada em Jekyll Island — o sistema de bancos regionais, o redesconto, a centralização de reservas —, mas substituía o controle privado por um conselho público de supervisão em Washington: o futuro Federal Reserve Board. O projeto ficou conhecido como Glass-Owen bill, ou Federal Reserve Act.
Carter Glass apresentou a versão final do projeto na Câmara em 29 de agosto de 1913. Depois de tramitar pelo Congresso, a lei foi sancionada pelo presidente Woodrow Wilson em 23 de dezembro de 1913, conforme registra a Library of Congress — criando formalmente o Federal Reserve System, com estrutura de doze bancos regionais e um conselho de supervisão federal em Washington.
Um segredo guardado por seis anos
O encontro em si permaneceu praticamente desconhecido do público por um bom tempo. O jornalista B.C. Forbes foi quem primeiro relatou publicamente o episódio, em outubro de 1916, em um artigo na revista Leslie’s Weekly, republicado em dezembro do mesmo ano na Current Opinion — e mais tarde incluído em seu livro de 1917, “Men Who Are Making America”. Apesar disso, a revelação passou praticamente despercebida na época: os próprios participantes negaram publicamente o episódio por cerca de vinte anos, e o relato só ganhou aceitação mais ampla quando Andrew, Vanderlip e Warburg confirmaram os detalhes ao biógrafo de Aldrich, em 1930.
Vale registrar, como um fato editorial e não como um julgamento de mérito, que esse episódio real — o sigilo genuíno, os nomes falsos, o encontro entre um senador e banqueiros de Wall Street para desenhar em particular a espinha técnica de uma lei federal — se tornou, ao longo do século seguinte, um símbolo recorrente em narrativas críticas ao Federal Reserve e a bancos centrais em geral, frequentemente contado de forma distorcida ou incompleta. Essa reconstrução não pretende validar nem debater essas narrativas — apenas registrar, a partir de fontes históricas primárias, o que de fato está documentado sobre o encontro que aconteceu.
O que ficou da ilha
Jekyll Island não produziu o Federal Reserve Act tal como foi sancionado — a lei final teve autoria democrata, supervisão pública diferente da proposta original e passou por um processo legislativo público e disputado, com direito a rejeição inicial do próprio plano que a inspirou. Mas o encontro produziu algo real: o primeiro rascunho técnico completo e coerente de como um banco central americano poderia funcionar, elaborado por um grupo pequeno, em sigilo, entre um senador influente e alguns dos banqueiros mais poderosos de Wall Street, em uma ilha isolada da costa da Geórgia. É esse duplo caráter — o peso técnico legítimo do que ali foi produzido e o desconforto genuíno gerado pelo modo como foi produzido, em segredo e sob nomes falsos — que torna o episódio historicamente interessante por si só, sem necessidade de exagero em nenhuma das duas direções.
Fontes citadas neste artigo: