Perder Dói o Dobro de Ganhar? Uma Reanálise Derruba um dos Números Mais Citados da Economia Comportamental

Se você já ouviu que “perder R$ 100 dói psicologicamente o dobro do que ganhar R$ 100 dá prazer”, provavelmente ouviu uma versão da aversão à perda — um dos conceitos mais repetidos da psicologia popular e da economia comportamental. Ele aparece em livros de autoajuda, treinamentos corporativos, cursos de marketing, design de produtos digitais e reportagens sobre finanças pessoais. A ideia nasceu de um trabalho sério, com bases empíricas robustas, associado a Daniel Kahneman e Amos Tversky, e ajudou a render a Kahneman o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2002. Poucos números em ciências sociais viajaram tão longe do laboratório até o senso comum.

Agora, uma reanálise publicada em 2025 no periódico científico Journal of Economic Psychology revisita justamente essa base empírica — e sugere que boa parte da força atribuída à aversão à perda ao longo de décadas pode ter vindo, em grande medida, de como os próprios experimentos foram desenhados. Não se trata de um estudo isolado com dados novos, mas de uma reanálise cuidadosa de um conjunto de evidências que a comunidade científica já vinha usando como referência. É uma história sobre como a ciência revisita seus próprios números — não sobre “o Nobel de Kahneman estava errado”.

O número que virou lenda da psicologia popular

A aversão à perda foi formalizada por Kahneman e Tversky em 1979, no artigo que deu origem à Teoria do Prospecto (Prospect Theory), e depois refinada em 1992 em um segundo trabalho dos mesmos autores, “Advances in Prospect Theory: Cumulative Representation of Uncertainty”, publicado no Journal of Risk and Uncertainty. Esse segundo artigo é a origem do coeficiente de aversão à perda (frequentemente chamado de lambda, λ) que se popularizou como referência: a estimativa situada em torno de 2 a 2,25, interpretada como “perdas pesam de duas a duas vezes e um quarto mais do que ganhos equivalentes” na experiência subjetiva das pessoas.

Esse número — a “perda dói o dobro do que o ganho dá prazer” — se tornou um dos fatos mais citados fora da própria economia comportamental. Ele ajuda a explicar por que investidores relutam em vender ações que caíram de preço, por que consumidores reagem mais fortemente a uma cobrança extra do que a um desconto de mesmo valor, e por que campanhas de comunicação e design de interfaces frequentemente enquadram mensagens em termos do que a pessoa “perde” ao não agir. Ao longo de mais de quatro décadas, centenas de estudos tentaram estimar esse coeficiente em contextos diferentes — apostas hipotéticas, jogos com dinheiro real, decisões de consumo, escolhas em laboratório e em campo.

Uma reanálise, não um novo experimento

Em 2024, quatro pesquisadores — Alexander L. Brown, Taisuke Imai, Ferdinand M. Vieider e Colin F. Camerer — publicaram na Journal of Economic Literature uma meta-análise ampla reunindo 607 estimativas empíricas de aversão à perda extraídas de 150 artigos científicos publicados entre 1992 e 2017. O resultado central desse trabalho foi um coeficiente médio de aversão à perda de aproximadamente 1,96 (intervalo de confiança de 95%: 1,82 a 2,10) — um número muito próximo da estimativa clássica de Tversky e Kahneman, e que pareceu confirmar, com uma base de dados muito maior, a robustez do fenômeno.

Foi exatamente esse conjunto de dados que Eldad Yechiam e Dana Zeif, pesquisadores do Technion — Israel Institute of Technology, decidiram reexaminar. Publicado em 2025 na revista Journal of Economic Psychology (volume 107, artigo 102801) sob o título “Loss Aversion is Not Robust: A Re-Meta-Analysis”, o estudo não coletou dados novos: ele voltou ao banco de dados de Brown e colaboradores e perguntou se havia características no desenho dos experimentos originais capazes de inflar artificialmente o coeficiente medido. Depois de aplicar critérios de qualidade e elegibilidade metodológica, os autores trabalharam com um subconjunto de 84 estudos, totalizando 163 estimativas independentes de aversão à perda e aproximadamente 149.218 participantes ao todo — uma base ainda muito substancial.

Os dois vieses escondidos no desenho dos experimentos

Yechiam e Zeif identificaram dois problemas metodológicos recorrentes na literatura que tentava medir a aversão à perda.

O primeiro é uma assimetria na magnitude das opções apresentadas aos participantes. Em muitos estudos, os valores de perda oferecidos nos experimentos eram sistematicamente menores do que os valores de ganho correspondentes (o que os autores chamam de desenho “L < G"). Segundo os autores, esse desenho confunde dois fenômenos psicológicos distintos: a aversão à perda propriamente dita e a "sensibilidade decrescente" (diminishing sensitivity) — a tendência, já bem documentada na própria Teoria do Prospecto, de reagirmos proporcionalmente menos a valores maiores, sejam eles ganhos ou perdas. Quando as perdas testadas são menores em valor absoluto do que os ganhos testados, o coeficiente calculado passa a capturar parte desse efeito de sensibilidade decrescente, e não apenas a assimetria emocional entre perder e ganhar.

O segundo problema é o efeito de ordem de apresentação. Quando as opções de ganho e perda eram apresentadas aos participantes em sequência crescente ou decrescente de valor — em vez de em ordem aleatória —, o coeficiente de aversão à perda medido tendia a ser maior, provavelmente por efeitos de contraste e ancoragem ligados à própria sequência de escolhas, e não à assimetria psicológica entre ganhar e perder.

Na análise dos autores, estudos que combinavam os dois vieses — perdas menores que ganhos e apresentação ordenada — produziram o coeficiente mediano mais alto (2,295). Estudos que evitavam ambos os vieses — magnitudes simétricas entre perdas e ganhos, e apresentação não ordenada — produziram o coeficiente mediano mais baixo (1,125).

De cerca de 2 para perto de 1: o que os números realmente mostram

Ao restringir a análise apenas aos estudos com desenho simétrico (perdas e ganhos de magnitude comparável) e sem ordenação das opções, Yechiam e Zeif chegaram a um coeficiente médio de aversão à perda de aproximadamente 1,07, com intervalo de confiança de 95% entre 0,97 e 1,18. Estatisticamente, esse valor não é diferente de 1,0 — o ponto que representaria ausência completa de assimetria entre o peso psicológico de perdas e ganhos (Z = 1,39; p = 0,16).

Uma análise complementar de regressão meta-analítica confirmou o padrão: corrigir a assimetria de magnitude reduziu o coeficiente estimado em cerca de 0,70 ponto, e remover o efeito de ordenação reduziu mais 0,55 ponto — ambos os efeitos estatisticamente significativos. Somados, os dois ajustes levam a uma previsão de coeficiente de aproximadamente 1,08 para estudos simétricos e não ordenados, próxima da estimativa direta. Outras características dos estudos — como o tamanho das apostas, o tipo de enquadramento da escolha (aceitar/rejeitar) ou o método de precificação — não mostraram associação estatisticamente significativa com o coeficiente medido.

O que a reanálise não diz

É importante ser preciso sobre o alcance dessa conclusão, e os próprios autores fazem questão de demarcar seus limites. Yechiam e Zeif não afirmam que a aversão à perda “não existe” ou que Kahneman e Tversky estavam simplesmente enganados. O que a reanálise sugere é que a magnitude do efeito historicamente citada — o famoso “duas vezes mais” — parece ter sido inflada, em boa parte, por escolhas de desenho experimental que se repetiram, sem questionamento, ao longo de décadas de pesquisa.

Os autores também apontam ressalvas relevantes sobre o alcance de sua própria análise. Em primeiro lugar, o padrão encontrado é uma média agregada entre estudos: os próprios pesquisadores observam que, no nível individual, algumas pessoas seguem sendo consistentemente avessas à perda, assim como alguns subgrupos específicos — a ausência de assimetria em nível populacional não significa ausência de assimetria para cada indivíduo. Em segundo lugar, a base de dados analisada é fortemente concentrada em apostas de valor baixo: apenas 10,3% dos estudos envolveram perdas médias acima de US$ 100 (ajustados por paridade de poder de compra), o que significa que a reanálise não necessariamente descreve o que acontece em decisões envolvendo valores altos ou perdas com consequências reais mais severas — um domínio que os próprios autores reconhecem não estar coberto por essa evidência.

Esse é, portanto, um debate sobre a magnitude e a robustez metodológica de um efeito psicológico específico, medido em condições específicas de laboratório — não uma tese sobre como qualquer pessoa deveria se sentir, ou deveria se comportar, diante de ganhos e perdas financeiras na vida real.

Uma lição sobre como a ciência se autocorrige

A trajetória desse número — de 1979 a 2025, passando por um Prêmio Nobel, centenas de replicações e agora uma reanálise crítica de seus próprios fundamentos empíricos — ilustra algo mais interessante do que a simples pergunta “a aversão à perda é real?”. Ela mostra como um resultado pode se tornar “fato estabelecido” na cultura popular muito antes de a comunidade científica esgotar o escrutínio metodológico sobre ele, e como esse escrutínio, quando finalmente chega, tende a ser mais sutil do que um simples “certo” ou “errado”.

Yechiam e Zeif não descartam décadas de pesquisa em economia comportamental; eles apontam para um problema específico e mensurável no desenho de experimentos amplamente replicado — e mostram, com dados, o quanto esse problema pode ter distorcido nossa percepção da magnitude de um efeito psicológico real. É um lembrete de que, mesmo em ciências consolidadas, números amplamente citados merecem revisitação periódica, e que a força de uma ideia popular nem sempre é proporcional à força da evidência que a sustenta hoje.


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